Terça-feira, 31 de Julho de 2001
Argentina não supera o ceticismo

Queda na arrecadação e frieza do FMI em relação à aprovação de ajuste no Senado desanimam investidores e governo

MÁRCIA CARMO

BUENOS AIRES - Não tem malabarismo político ou econômico que salve a Argentina da desconfiança interna e externa. A prova disso é que o alívio no mercado financeiro durou apenas duas horas, depois da aprovação pelo Senado do projeto de déficit zero, que limita os gastos ao que se arrecada. Com o país entrando no quarto ano de recessão, o diretor da Receita Federal, Héctor Rodríguez, avisou que em julho a queda na arrecadação será de 6% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Com isso, poucos acreditam que o governo poderá colocar em prática a lei aprovada. ''Agora, a economia tem que crescer porque nem eu, nem o governo e nem o país poderíamos agüentar outra onda de ajustes. Seria muito doloroso'', desabafou o ministro da Economia, Domingo Cavallo. ''Nosso desafio é retomar a credibilidade e reconquistar os créditos perdidos'', apontou.

Protestos - Ontem, manifestantes contrários aos cortes previstos no pacote de Cavallo e à privatização de uma companhia pública da província entraram em choque com a polícia, em Córdoba. Hoje, o governo enfrentará uma nova onda de protestos, que promete interromper o trânsito em todo o país. As manifestações reunirão piqueteiros (como são chamados os manifestantes quase profissionais), desempregados (que representam 16,4% da população economicamente ativa), servidores e aposentados, alvos do sétimo pacote do governo do presidente Fernando de la Rúa, que cortará 13% dos que recebem mais de US$ 500.

Para completar, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou, no fim do dia, uma nota oficial, dizendo que apóia o ajuste. E nada mais. Quer dizer, nenhuma palavra sobre a esperada antecipação dos desembolsos programados pelo organismo internacional para a Argentina. ''A nota é um balde de água fria'', definiu um assessor do Fundo. Mas a assessores diretos, Cavallo disse que espera um novo socorro que poderia sair, desta vez, de empresas e governos dos Estados Unidos e da Europa. Nada ainda oficialmente confirmado.

''A desconfiança é o integrante grave deste governo. Não adianta mais aprovar uma lei. É preciso provar que ela será cumprida'', disse Joaquin Morales Sola, um dos principais comentaristas políticos do país. Ontem à noite, o secretário e vice-ministro de Finanças, Daniel Marx, definia detalhes da operação de troca de Letras do Tesouro - os títulos públicos que, com vencimentos iminentes somando US$ 4,8 bilhões, estão contribuindo para sufocar ainda mais o caixa federal. A medida é mais uma tentativa de agradar o mercado. Ontem, o índice Merval, da Bolsa de Buenos Aires, fechou com baixa de 0,9% e a taxa de risco país foi a 1.571 pontos básicos, apenas dois a menos do registrado na sexta-feira.

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