O governo federal, que vai impor a todo o país uma redução média de 20% no consumo de energia elétrica, em nome da crise de abastecimento, não está fazendo a sua parte. Mesmo após o anúncio do mais agressivo plano de racionamento da história brasileira, os órgãos da administração direta continuam a desperdiçar eletricidade.
Levantamento feito pelo deputado Agnelo Queiroz (PCdoB-DF) no Sistema Integrado de Acompanhamento Financeiro (Siafi), prestação de contas dos gastos da União disponível na internet, mostra que o consumo de energia da União não pára de crescer. Entre janeiro e abril deste ano, a conta de luz dos órgãos da administração direta bateu nos R$ 95,8 milhões. O levantamento mostra que nos últimos três anos, os gastos da União com energia não pararam de crescer. Em 1998, o governo gastou R$ 271,1 milhões. Em 1999, a conta subiu para R$ 306,4 milhões. No ano passado, foi ainda maior: R$ 346,3 milhões.
SUS leva um terço - ''Esses números não levam em conta os gastos das estatais e dos órgãos da administração indireta. O governo gasta três vezes mais com a conta de luz do que o que investe no Sistema Único de Saúde (SUS)'', denuncia Queiroz.
O deputado constatou que no ranking das dez mais do ano passado, os campeões no consumo de energia foram os militares. O primeiro lugar ficou com o Ministério da Marinha, com uma conta de R$ 32,7 milhões. A segunda posição ficou com o Ministério do Exército, com uma fatura de R$ 28,9 milhões. Logo depois, veio o Ministério da Aeronáutica, com R$ 26,3 milhões.
Por ironia, o Ministério da Fazenda, o guardião do cofre da União, ficou com a quarta posição no ranking dos gastadores de energia, com uma conta de R$ 19,9 milhões. O Ministério da Saúde, que vive atrás de mais verbas para equipar os hospitais, foi o sétimo maior consumidor de energia da União no ano passado: R$ 7,8 milhões.
Os campeões - Pertencem ao Ministério da Marinha as instalações públicas que mais gastaram energia em 2000. A Base Naval do Rio de Janeiro ficou em primeiríssimo lugar, com uma conta de R$ 6,4 milhões. Logo depois, vem o Arsenal de Marinha no Rio, com uma conta de R$ 6,05 milhões no ano passado. ''Isso mostra que o governo ainda tem muito onde cortar gastos. E o que é mais grave: ninguém sabe a quantas andam os gastos de energia nos estados e municípios'', alerta o deputado.
Na noite da última sexta-feira, uma equipe do Jornal do Brasil flagrou como os órgãos do governo federal continuam a desperdiçar energia, mesmo diante da ordem expressa do Palácio do Planalto de um corte imediato de 25% dos gastos com eletricidade.
Desobediência - Na Esplanada dos Ministérios, as luzes decorativas - aquelas que iluminam os letreiros - permaneciam acessas. Apenas três ministérios acataram a ordem do presidente Fernando Henrique Cardoso: Minas e Energia, Fazenda e Educação. Nos demais, até as luzes das árvores permaneciam acesas.
Na catedral de Brasília, recém-restaurada, as luzes permaneciam realçando os traços futuristas da arquitetura de Oscar Niemeyer e os vitrais em tons de azul. No Palácio do Planalto, as únicas luzes visíveis estavam no andar térreo. O Congresso Nacional manteve as luzes decorativas acesas, mas a meia força. O prédio principal do Supremo Tribunal Federal (STF) também estava às escuras. Os prédios dos ministérios militares (Exército, Marinha e Aeronáutica), campeões de gastos em 2000, curiosamente estavam com as luzes dos andares apagadas, embora as fachadas permanecessem iluminadas. Na Praça dos Três Poderes, casais aproveitaram a nova penumbra para namorar.
No próximo dia 1° começa a vigorar o Plano de Contigenciamento de Carga, que tem o objetivo de reduzir em 20% o consumo de energia nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Pelas regras do plano, o consumo de prédios e de monumentos públicos tem que cair 25%, sob o risco de punição para os administradores.
Se em dois meses o governo não conseguir alcançar 80% da meta de redução de consumo, o projeto determina o início do sistema de rodízio de corte de fornecimento de energia. Isso significa que pelo menos uma vez por semana os moradores das três regiões terão que passar quatro horas sem energia em suas casas.
Rio na penumbra - No Rio, onde o prefeito Cesar Maia determinou uma série de medidas de redução de iluminação pública, inclusive na orla e em áreas de lazer como o Aterro do Flamengo, as autoridades responsáveis pela segurança na cidade - Polícia Militar e Guarda Municipal - ainda não prepararam um plano especial de policiamento.
A perspectiva das madrugadas à meia-luz não agrada a muitos cariocas. ''Iluminação em via pública é questão de segurança, principalmente na orla, já que há facilidade de um assaltante fugir até de bicicleta'', reclamou o professor de vôlei de praia Robenildo Alves.
*Colaboraram Luiz Osvaldo Grossmann e Léa Agostinho