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À procura do bom inimigo


A três anos da sucessão presidencial, a palavra está com o PT, que nada tem a acrescentar ao que ficou sem explicação. Ficou vesgo por manter um olho na eleição dos prefeitos ano que vem e outro atento a 2006. É uma questão bifocal a que não faltam motivos para brigas domésticas. Toda hora tem um que ameaça sair da bancada na Câmara ou outro de fora querendo entrar para proteger-se sob a legenda da moda.

O estrabismo eleitoral tem alguma coisa a ver com as contradições (vá lá) de princípios que sacodem um partido com saudade do tempo em que estava desobrigado das responsabilidades de governo. Tudo já parece que não vai dar certo, por mais que seja cedo para conclusões. Vai sobrar para o governo Lula, senão para o próprio.

A República já conheceu oposição imprestável para governar e governos que, ao deixar o poder, não honraram a responsabilidade oposicionista. Mas é do jogo. O PT praticou durante duas décadas uma oposição intransigente cujo grande prêmio foi ganhar o governo. Intransigência é útil fora mas transigência torna-se inevitável dentro do governo. O desconforto atual vai passar.

Enquanto isso, é hora do despertar para a escolha de um bom inimigo político, capaz de devolver ao PT a coesão adquirida na oposição. Com a maioria de pequenos partidos a formar um sopão de letras incapaz de reduzir a zero a fome de poder, a preferência para inimigo definitivo vai recair sobre PSDB e PFL. Ficaram de fora mas aproveitarão o entulho das demolições prometidas desde antes pelo PT.

Quando socialdemocratas e liberais se juntaram numa empresa ambiciosa (já se foram nove anos), em torno da candidatura Fernando Henrique a presidente, a iniciativa levou em conta que o PT viria com Luiz Inácio Lula da Silva para presidente, dado seu desempenho surpreendente na primeira eleição direta. O único engano foi contar com o segundo turno. A maioria absoluta se fez no primeiro, e a socialdemocracia sorriu. O sonho dos vencedores foi o pesadelo dos derrotados, e se repetiria quatro anos depois. Era a prevalência da esquerda politicamente correta sobre a esquerda predatória. O PT guardou ressentimento. Chegou a hora de retribuir.

Mas em dois mandatos a socialdemocracia esvaziou-se a ponto de ser confundida com o neoliberalismo. E, pior, passou a falar com sotaque do mercado. Mas o adversário escolhido pelo PSDB correspondeu. É natural que o PT retribua na mesma moeda e prefira a dupla PSDB-PFL como adversária nas próximas oportunidades. O PT não fará por menos. Adversário sem qualidade eleitoral é o pior que pode acontecer a qualquer candidato. Governo precisa de bons inimigos, indispensáveis para grandes vitórias. Detrás de todo vencedor deve estar (é só procurar com atenção) um inimigo digno da preferência. O PFL e o PSDB equivalem a um avalista de peso. Na definição do inimigo preferencial, não pode ocorrer erro de escolha. Entre o PFL e o PMDB, o governo Lula preferiu o segundo para a função de mordomo da farta maioria parlamentar que o serve. É suficientemente grande, contraditório, interesseiro. Mas convém lembrar que não só a qualidade pesa na preferência. O momento da escolha do adversário também é importantíssimo. É a questão do PT. O PFL já deu sinais de que ele mesmo se escolheu como alvo preferencial do governo. Mostra-se honrado com a disposição de expor-se. Está gostando da oposição. Ficará decepcionado se o Planalto e o PT não corresponderem à expectativa de o sagrarem inimigo.

O PSDB e o PFL fazem uma dupla blindada pelo destino. Mantiveram-se lado a lado no primeiro mandato de Fernando Henrique e amuaram-se no segundo. Na sucessão presidencial de 2002, cada um seguiu para um lado mas não se reencontraram no insucesso. Agora dependem do PT para selarem, tendo em vista o futuro, aliança que deve ter razões que a razão finge não perceber. A derrota não os uniu, mas Lula fez questão de juntá-los. Um acerto de contas histórico. A escolha não é obra do acaso mas do cálculo político.

O PMDB passou para o lado de dentro do governo e daí ninguém o retira. Mas, como não é bobo no jogo eleitoral, o PT já está em campo com disposição de atrapalhar alianças nacionais em eleição de prefeitos. O futuro pode esperar. Pela abundância das chuvas esperadas, a onça vai beber água em 2006.


[12/OUT/2003]


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