Dentre as contradições que embalam o governo Lula, a mais enigmática se localiza no relacionamento do presidente com o seu vice. Os dois sacolejam no pedregoso mandato compartilhado. Luiz Inácio Lula da Silva e José Alencar fazem uma dupla que não se entende mas não se desentende.
José Alencar foi preferência pessoal de Luiz Inácio na hora de compor a chapa, mas por motivos diferentes dos alegados. A razão foi evitar que, na confusão, empurrassem um radical capaz de tirar o tapete do candidato. As pesquisas exageravam a favor de Lula, que sacou o nome do industrial para fechar a chapa dos sonhos da esquerda: finalmente, um burguês progressista ao lado de um operário. História viva.
Deu eleitoralmente certo mas vieram com o tempo os arrufos ideológicos. Por não irem às vias de fato, o que tem sido dito pelo vice vai sendo entendido como a segunda voz do presidente. É o que ele gostaria de dizer e não pode. Parece mais exercício de ventriloquia de Lula pela boca de José Alencar do que dueto, que pressupõe dois juntos sem desafinação estridente. Não terá a segunda voz feita pelo vice algo a ver com a próxima eleição em Minas? Em 2006 ninguém pode dizer como estará o eleitor mas, pelo visto, a política econômica será o calcanhar-de-aquiles de Lula na hora da reeleição. Mas também serão eleitos governadores, vices e senadores. O presidente vai pisar em ovos e o vice poderá fazer o papel inverso ao que teve na eleição passada: avalista junto à esquerda para que Lula possa dizer (dependendo do câmbio leitoral) que nunca foi de direita. Nada impede que a futura rodada seja imprevisível como qualquer eleição que se preza. Isto é, não dependa só da vontade dos eleitores nem do outro mundo.
As outras contradições sobre as quais se assenta o governo Lula não têm dinâmica própria. O que potencializa as relações entre o vice e o presidente é a política econômica. Ou, em termos institucionais, entre a Presidência e a vice. Não é pessoal. O PL, partido do vice, voltou à cena para contrapor à oferta oficial do pacto nacional um manifesto igualmente vazio de novidade.
É crítica requentada. Falar mal da política econômica - essa dança do ventre do ministro Palocci - não garante popularidade. E acusar Henrique Meireles de sabotar o Brasil a golpes de taxas de juros é passar a retórica à frente do Banco Central. O governo é a casa da sogra e o PL tem assento à mesa farta.
Não será de estranhar se, uma hora dessas, alguém defender, para ver se pega de galho, o parlamentarismo que não se deu bem na terra brasileira. O presidencialismo já cansou visivelmente o presidente Lula, desanimou os cidadãos e começa a perder a confiança dos políticos, que vivem de revolver problemas sem resolver nada. Pode o parlamentarismo bater à porta sem constrangimento. O brasileiro se sente infeliz por um país que não está dando certo .
Os partidos que comem na mão do governo (deste ou de outro) se sentiriam menos constrangidos sob o parlamentarismo, que preserva o anonimato pessoal. O feitio institucional favorece o recato. O presidencialismo, ao contrário, chama a atenção mais do que gravata importada. Lula tem tudo para se dar bem com o parlamentarismo. Não pede mas aceita: gosta mais de falar que ouvir, e parlamentarismo é uma conversa interminável. Iam se dar bem. Segundo porque prefere delegar e cobrar, sem abdicar das viagens. Ministérios enormes como os seus são característicos dos governos de gabinete, flutuantes sobre uma administração defendida contra nomeações e, sobretudo, demissões políticas. O presidente preside mas não governa.
Lula está perdendo tempo e oportunidade de bancar o parlamentarismo enquanto anda perto. O PMDB provavelmente irá propor governos de gabinete por duas razões superiores: a negociação dos cargos passa a ser do conhecimento geral e o presidente só escolhe o primeiro-ministro para compor o gabinete. Quando convier, jogará ministros fora com a água da bacia de Pilatos. Antes disso, Lula lavaria as mãos: o primeiro-ministro já estaria escalado. José Dirceu, claro. Por merecimento e reparação política.
Fora do parlamentarismo, o Brasil não tem como zerar contas que não fecham politicamente.
A democracia já deu, mais de uma vez, a impressão de que veio para ficar e garantir naturalidade às crises. Acontece que o presidencialismo não facilita. O parlamentarismo faz implosão de Ministérios e negocia novo governo na categoria de bem durável. Até a próxima oportunidade de vir abaixo.