BRISTOL, EUA -
A seleção de jogadores brasileiros baseados na Europa passou pela América Latina, ganhou dois jogos pelas Eliminatórias da Copa do Mundo (embora a FIFA não goste mais de tal denominação) e seus integrantes agora voltam a batalhar nos campos onde está de fato o seu ganha-pão.
O fenômeno é antigo e começou com os uruguaios, porque há muitos e muitos anos o campeonato daquele país vinha se resumindo a uma disputa entre Nacional e Peñarol. Já na década de 70 havia ocasiões em que o embarque da Seleção Uruguaia para jogos na Europa tinha apenas o técnico, médico e seletos cartolas. Os jogadores esperavam lá mesmo, pois atuavam nos clubes espanhóis, italianos ou franceses.
Aos poucos, Alemanha, Inglaterra, Escócia, Portugal, Grécia, Rússia, Bielorrússia e assemelhados passaram a ser incluídos. Para lá vão jogadores do Uruguai, Argentina, Brasil, Peru, Colômbia, Paraguai, onde quer que se chute uma bola ao sul do equador. E abrange outros esportes. A Seleção Argentina de Basquete está toda em clubes europeus e americanos. Há alguns anos a Federação Brasileira de Basquete tentou impedir o êxodo de nossos jogadores, mas soluções impostas de cima para baixo duram pouco, pois não têm base na realidade. Foi o que sucedeu a essa tentativa.
A verdadeira solução tem que vir com o fortalecimento de nossos campeonatos. Eles podem melhorar com mais ordem, regulamentos mais competentes e um menor número de clubes, para elevar o nível geral. Mas a solução passa necessariamente pelo desenvolvimento econômico e o esporte brasileiro está na companhia de outras nações pobres que vêem a diferença entre Primeiro Mundo e Terceiro Mundo crescer com o passar dos anos.
O campeonato mais importante que se joga no momento para nosso esporte ocorre em Cancún, no México, onde os países pobres procuram arrancar dos ricos um sistema internacional mais justo. A World Trade Organization, que aí creio chamarem de Organização Mundial de Comércio, vem há anos empurrando por nossa goela abaixo um conceito de globalização que faz a alegria dos ricos.
Fala-se em competição entre a agricultura do Primeiro Mundo e a do Terceiro Mundo, mas não há tal. São turmas diferentes. A agricultura dos países ricos é hoje uma indústria pesada, como siderurgia ou estaleiros. São imensos conglomerados, altamente mecanizados e subsidiados. Inundam o mercado mundial com o excesso da produção doméstica, a preços de dumping.
Em Cancún, temos que jogar pra frente. Bem mais pra frente que o time do Parreira.
Vida despedaçada
Um amigo meu outro dia se queixava do mau gosto crescente, da grosseria desenfreada da televisão brasileira. Se é assim, creio que alguém aí se interessará em reprisar um grotesco programa que outro dia foi ao ar na antiga TV Montecarlo, na Itália.
O apresentador, um certo Biscardi, especialista em baixarias, começou por dizer que Maradona foi o maior jogador da história do futebol. Até aí, nada demais, pode ser um bom debate. O melancólico ficou mesmo por conta da figura do homenageado, metido em uma camiseta, com expressão entorpecida, andar cambaleante.
Vi momentos de um teipe, mas passo a palavra a uma testemunha do original, o ítalo-brasileiro Giulio Sanmartini:
- O apresentador afirma: ''Aqui está um gênio da trigonometria'' (sic). Maradona tenta dizer alguma coisa, mas sua voz parece o apito de um enfisematoso. Perguntado se voltaria ao programa, diz que o faria por dois milhões de euros. Seu conceito de tempo parece prejudicado, fala de Gianni Agnelli como se continuasse vivo. A maldade final ainda está para vir. Fazem-no assistir a cinco minutos de filmes de sua glória. Os dois Maradonas, lado a lado, ilustram uma vida despedaçada. São os olhos de Diego que olham Diego, embaçados, tristes, perdidos, mirando de um lugar onde não se tem retorno.