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O batuque da improvisação


Há mais de quatro meses o Congresso não trabalha. Quer dizer, não vota nada. E para falar a dura verdade, salvo para os que têm interesse direto em projetos empacados, ninguém sentiu falta. Com o modelo brasiliense da semana de dois a três dias úteis, regado pelo esguicho indecoroso das mordomias, das vantagens, do despudor das verbas indenizatórias, o Legislativo justamente se desqualifica no respeito e na estima da população, batendo recordes negativos de impopularidade.

Desta vez, a longa estação de madraçaria começou com a dispersão justificada pela campanha municipal e emenda na crise política que expõe as instituições na vitrine das suas mazelas. Trata-se de uma didática lição para o entendimento das omissões, da incompetência e erros em cascata do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do seu cacoete de chegar sempre atrasado para os remendos nos buracos da sua credibilidade e de dar a volta nos problemas para escapar da responsabilidade de enfrentar o desafio das reformas para valer.

Alem das miudezas dos falsos melindres de partidos, que não se dão ao respeito e ameaçam romper com o governo para pousar na oposição, o miolo do choque entre os deputados, senadores, governadores e prefeitos com Lula e a meia dúzia de ministros que palpitam é a velha e eterna quizila do rateio das verbas orçamentárias.

Reconheça-se que os parlamentares têm suas razões no arranque insurrecional que irmana situacionistas e oposicionistas no motim que forçou a rendição de Lula, imprensado contra a parede pela cobrança da palavra empenhada e mais uma vez descumprida.

Em poucas palavras: o governo assumiu públicos e expressos compromissos de liberar as verbas para as emendas dos parlamentares aprovadas na votação do Orçamento. E não honrou a palavra, esquivando-se na evasiva das desculpas e dos adiamentos. Depois de arrombada a cancela, quando pipocou a revolta dos mansos, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, coçou-se, o ministro do Planejamento, Guido Mantega, deu o ar da sua gracinha e o presidente bateu o martelo prometendo de pedra e cal o empenho e a liberação imediata de R$ 648 milhões para as emendas individuais na próxima semana.

Pois nem assim e com o comparecimento de mais de 400 dos 513 deputados a Câmara conseguiu quorum para iniciar a votação da pauta que acumula detritos de muitos meses. Os excelentíssimos deputados querem o dinheiro na mão para abrir os dedos e apertar a tecla do voto eletrônico.

Mas, a baderna é geral no colapso do descrédito do governo e no desmantelo da sua inércia diante dos desafios que encorpam até o estouro.

O PMDB, viciado no agasalho palaciano, em reunião das bancadas na Câmara e no Senado, com a presença de seis governadores, depois de três horas de grossa descompostura no governo, transferiu para Convenção Nacional convocada para 12 de dezembro a decisão de romper com presidente Lula e pedir as contas, com o afastamento dos dois representantes que enfeitam o mastodonte ministerial.

Na mesma semana, os novos prefeitos eleitos das 44 maiores cidades do país desembarcaram em Brasília e compareceram ao encontro com o presidente para desfiar o rosário das suas amarguras. Quase todos receberão as prefeituras com os cofres raspados e dividas imensas, que os ameaçam com as punições da Lei de Responsabilidade Fiscal, inclusive o risco de prisão. Lula prometeu acudir os aflitos e descalçou a bota aconselhando a turma a queixar-se ao bispo no Congresso.

Nas duas pendengas mais sérias e na fila de dezenas às portas do Planalto, salta à vista a omissão de liderança e a dramática incompetência em identificar os problemas e as suas prioridades, para a antecipação que arranca a raiz e corta o mal antes que se agrave.

E, de cambulhada, a frouxidão da autoridade para ir ao âmago das questões que se eternizam e agravam até a ruptura terminal.

A petulância dos parlamentares, adubada pelas mordomias e a madracice, clama pelo corretivo severo da reforma política, prometida e sempre adiada para a poda que a reduza à caiação da fachada.

E é a reforma que fecharia as torneiras dos desperdícios que arrombam os orçamentos municipais, com a orgia das câmaras de vereadores, cópia da esbórnia das assembléias legislativas estaduais e da praga que pega como cobreiro e corrói a respeitabilidade dos três poderes.

Caso para cirurgia de risco e não para os anódinos curativos com iodo e esparadrapo.


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[12/NOV/2004]


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