No surto de eloqüência do giro africano, que se prolonga até o fim da semana, o nosso falante presidente Luiz Inácio Lula da Silva, solto no improviso e esbanjando euforia, mistura pérolas de generoso arrependimento - esmurra o peito com as pancadas do remorso de grosserias e promete não repetir as agressões a muitos dos seus covardes antecessores, não identificados - com recaídas em bravatas e escorregões em promessas mal formuladas na simplificação dos equívocos de avaliação.
A briosa e peremptória afirmação de que nenhum acordo com o Fundo Monetário Internacional seria fechado sem a sua participação não se sustentou no ar, como balão murcho, de bucha apagada, com o desmentido indireto das manchetes do dia, confirmando o acerto firmado pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci, com a vice-diretora-gerente do FMI, Anne Krueger. Detalhados nos miúdos pormenores: do total de US$ 14 bilhões, a bolada de US$ 6 bilhões será entregue em pacotes de verdinhas estalando e os restantes US$ 8 bilhões correspondem à última parcela do atual acordo do nosso encalacramento. Como ficha de consolo, o FMI permite a liberação de US$ 2,9 bilhões para investimento em saneamento. Não é nada, não é nada, pobre não rejeita esmola.
Uma trombada a mais na coerência, zonza com tantas pancadas no quengo, não faz muita diferença. Muito mais preocupante é a confusa visão presidencial da reforma política, anunciada em Moçambique como a próxima prioridade, com o pesado argumento da necessidade de moralizar a atividade partidária e o processo eleitoral. Para a cura de tantos males da doente desenganada, o presidente receita a mezinha infalível do financiamento público das campanhas. Promessa que une oposicionistas e governistas no consenso da comovida gratidão por mais um privilégio às custas da endividada Viúva.
As campanhas já são largamente custeadas com o dinheiro público que paga o milionário horário de propaganda eleitoral, em rede de rádio e televisão, benefício de país rico, que não faz conta do preço do paparico aos parlamentares, de cujos votos necessitará nas barganhas dos acordos. Acontece que os candidatos caíram nas mãos dos marqueteiros, que cobram e gastam fortunas na montagem de novelas que vendam ao eleitorado os seus clientes como artigos de quitanda. Prestimoso na ajuda aos amigos e adversários, o presidente Lula entoa a cantiga da moralização para garantir as contas não apenas dos programas para as tevês e rádios, mas com as sobras para atender aos gastos com o varejo das faixas, dos brindes, dos deslocamentos e das gratificações aos companheiros contratados para o serviço pesado.
Vá lá que tenha o seu peso o argumento de que o candidato pobre não tem como disputar um mandato em campanhas cada vez mais sofisticadas e dispendiosas. Mas a preocupação presidencial com a fidelidade partidária para acabar com o escândalo da troca de legendas no balcão dos conchavos suspeitos é mais urgente e importante.
Se está mesmo decidido a enfiar a mão na massa, convém que se acautele para não errar a receita do bolo. E não confundir as coisas. O que está defendendo são retoques importantes no processo eleitoral. Reforma indica mudanças profundas e abrangentes que desçam à raiz da reabilitação do conceito do Legislativo e da atividade partidária.
É estranho e preocupante que o presidente e as principais lideranças do PT passem por cima, pisando em brasas, da gravíssima e crescente desmoralização do Congresso, na rabeira das pesquisas, com desqualificantes índices de rejeição popular. No caso, justa, justíssima.
A orgia das mordomias, das vantagens, das mágicas dos repasses de verbas que deformaram o mandato, transformando os parlamentares em novos-ricos, contaminou, como doença ruim, as Assembléias Legislativas estaduais e as Câmaras de Vereadores. Com raras exceções da ressalva prudente. Se a praga espalhou-se de cima para baixo - pelas muitas razões exaustivas vezes analisadas com a indignação solitária de quem prega para surdos -, o nível ético dos parlamentares inverteu o ciclo e começa com o desmonte das escolas de lideranças municipais.
É mais um pecado mortal na biografia do ex-presidente Ernesto Geisel, exposta na obra monumental de Elio Gaspari, no horror da sua indefensável aprovação do assassinato dos presos políticos e da aceitação da tortura para arrancar confissões. É do seu governo, com a sua assinatura, a proposta de emenda constitucional, aprovada com entusiásticos aplausos pelo Congresso, que estabeleceu a remuneração dos vereadores.
A vereança baixou do orgulho de um dever da cidadania, na prestação de serviço comunitário, a boca-rica. Seguiu o exemplo federal, discípulo de goela escancarada como filhotes no ninho. E a faculdade que estimulava vocações, ao recrutar as elites municipais na mescla com lideranças populares, cerrou as portas.
As cadeiras vazias na Câmara e no Senado foram invadidas pelo baixo clero.
Não vou parar por aqui. Sempre alguém pára para ouvir o turrão que se esgoela na praça vazia.