Na última sexta-feira, o canal de TV paga Multishow trouxe mais um reality show para o Brasil, o
Casa animada, ou
Drawn together, nome original americano. Mas dessa vez não era mais um prato cheio para quem adora criticar a TV. Trata-se de um desenho animado humorístico que junta em uma casa oito personagens de variados tipos de animação. Há uma
sex symbol dos anos 30, no estilo Betty Boop; uma princesa de contos de fadas; um ser esquisito do tipo Bob Esponja; um bichinho japonês que é a cara do Pikachu; um bonequinho baixado da internet; um personagem de videogame, e por aí vai.
Daria uma ótima gozação com os estereótipos do mundo da animação. Mas a produção não foi por aí. O material usado para fazer humor (politicamente incorreto, aliás) acabou sendo o que se passa num reality show. Demonstrações de racismo, ignorância, sensualismo, preconceito sexual e tantas outras características que costumam atacar as pessoas de carne e osso são exploradas a cada boa piada do desenho animado, mostrando como os reality shows são um festival de degradações humanas. Pois é. Esse novo gênero da TV, que já mostrou não ser apenas uma febre, e sim uma tendência, virou sinônimo de baixaria e apelação. Mas nem sempre foi assim.
Muitos dos programas que usam pessoas de verdade no lugar de personagens e registros do mundo real em vez de roteiros são bastante respeitáveis. Educativos até. Um exemplo foi A casa de 1900, no qual uma família tem que viver em um lar nos moldes do início do século 20, com a mulher se desesperando diante de tarefas como passar roupa com ferro a carvão, as crianças sem saber o que fazer sem TV, o marido perdendo sangue e, o que é pior, tempo ao se barbear com uma navalha etc. Outro ótimo reality show é um em que famílias americanas são levadas para viver entre povos ''exóticos'' do Terceiro Mundo, onde acabam pondo em dúvida os valores do american way of life. Tem também o Amazing race, no qual competidores são jogados em países que não conhecem, precisando chegar a um certo ponto determinado. São verdadeiras aulas de sociologia, história e antropologia.
É claro que para cada bom programa de TV surgem cinco de gosto duvidoso. E são justamente esses que fazem mais sucesso. Talvez seja culpa daquela velha teoria que diz que o público gosta de ver gente em situação pior que a sua. Sabe-se lá. Mas o fato é que o melhor jeito de ver gente em situações lamentáveis é juntando várias pessoas numa casa, de preferência disputando alguma recompensa, seja um namorado, um marido rico ou um prêmio em dinheiro. Se antes era a guerra que revelava o que há de pior no ser humano, podemos dizer que atualmente é o reality show que ocupa essa função. Até porque, hoje em dia, mesmo as guerras com os motivos mais sujos, são executadas de maneiras mais limpa, quase sem confrontos diretos, sem lutas mano a mano. Já nos reality shows, as pessoas têm que ser mais frias, mais dissimuladas, mais desonestas, mesmo sabendo que estão sendo acompanhadas por câmeras, que captam boa parte de suas fraquezas e defeitos. Mas tudo ainda pode piorar. Um dia os canais convencionais poderão descer ao nível do reality show que vem sendo exibido na TV Câmara, com suas imbatíveis transmissões ao vivo de CPIs e depoimentos no Conselho de Ética.