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Famosos no palco da telinha


Não é só papo de acadêmico, intelectual, jornalista ou educador. A crítica ao conteúdo dos programas das tardes de domingo já está virando até tática de vendedores de rua, daqueles que ficam ao lado do camelô que grita ter à disposição o ''cinto da moda'' ou o ''barrão de chocolate''. Outro dia, no Centro do Rio, um vendedor de pacotes promocionais de ingressos de peças de teatro estava na calçada dizendo em voz alta, em tom reprovador: ''Quer dizer que vocês preferem assistir ao Domingão do Faustão a ir a uma peça de teatro com preço reduzido?''. A intenção era fazer o transeunte se envergonhar de seu hábito e compensar sua falha indo ao teatro, essa sim uma forma respeitável de lazer. Técnicas de marketing à parte, esse vendedor de rua deve saber, talvez até por experiência familiar, que há entre o público que engorda os números dominicais do ibope muita gente disposta a ver coisas de qualidade. E por que não ver essas atrações na própria TV? Por que não no próprio Domingão do Faustão?

Um dos problemas mais fáceis de apontar nos programas dominicais de TV é a falta de conteúdo. Como estamos no que aparenta ser o auge da era do culto às celebridades, Faustão e Gugu atraem o público levando uma série de gente famosa ao palco. Tudo bem quando as celebridades são cantores ou bandas, que chegam lá no auditório, trocam umas palavras com o apresentador e logo depois soltam seus últimos sucessos. Não importa se a celebridade é um cantor com talento reconhecido ao longo dos anos ou um novo nome que interpreta uma canção de um CD daqueles que só faltam ter a palavra ''descartável'' carimbada na capa. Há de se respeitar todas as formas de arte e o gosto musical do público. Difícil de engolir é quando o nome famoso escalado para segurar a audiência é apenas uma celebridade-miojo (aquelas que ficam prontas em questão de minutos, duram pouco e não deixam lembranças depois de consumidas), que vai ao palco sem ter o que dizer ou fazer. Mas o pior é quando os convocados são atores.

Não que os atores sejam artistas desprezíveis ou profissionais sem talento. Pelo contrário até. O grande problema é que quando vão para o palco do Faustão ou do Gugu, os atores são usados da pior forma possível, são valorizados pelo que menos têm de importante: sua estampa ou sua fama. Por ter a Globo o elenco mais forte da TV, o Domingão do Faustão é o maior exemplo desse mal. Quase toda semana o programa leva para a frente das câmeras uma gama de atores, alguns ainda ''fazendo estágio'' em atrações como Malhação, outros já consagrados tanto na TV quanto no cinema e no teatro. E o que fazem ali no Domingão? Comem pizza para o telespectador ver. Ou falam do sucesso que estão fazendo na novela. Ou participam de um jogo qualquer. Ou apenas assistem a depoimentos gravados de seus familiares e amigos de infância, num quadro que sugere ter como objetivo não exatamente homenagear o ator, mas fazê-lo chorar de emoção. Um tremendo desperdício de talento. Se um cantor vai ao Domingão cantar, por que um ator não pode ir para atuar? Há milhares de esquetes que um ator poderia executar ali no palco, com Faustão gritando ''quem sabe faz ao vivo!''. E se não há nenhum texto ao gosto da produção do programa, que se faça um agora. Seria uma boa oportunidade de revelar roteiristas e dramaturgos à espera de uma chance.

Difícil imaginar atores fazendo algo de útil no Domingão? Até que não. Na semana passada foi convocada parte do elenco de Senhora do destino para falar sobre alguns dos temas abordados pela novela. Ao lado dos atores, o antropólogo Roberto da Matta e o psiquiatra Jairo Bouer. O público que não mudou de canal, mesmerizado pela presença de celebridades, teve uma aula sobre o mal de Alzheimer e um bom debate sobre a adoção de crianças por casais homossexuais. Melhor que isso só se falassem também sobre como evitar a morte ao cair de escadarias.


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[13/MAR/2005]


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