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Reinvenção do futebol


Quando Ronaldinho Gaúcho fez um golaço contra o Milan no último minuto, vibrei como não fazia havia muito tempo. Foi a vitória do talento individual e do futebol coletivo leve e ousado do Barcelona sobre o futebol pesado e medroso do Milan.

O Milan, que já tem uma forte defesa, jogou com mais um volante apenas marcador (Ambrosini) no lugar de um centroavante (Inzaghi). O time italiano marcou também muito atrás, com oito ou nove jogadores atrás da linha da bola.

O Milan atuou como se fosse a Colômbia contra o Brasil, mas o Barcelona não jogou como se fosse o time brasileiro. O Barça, como faz sempre, marcou por pressão e tomou todas as bolas no meio-campo e na intermediária do Milan. O Barcelona só não fez mais gols porque a defesa do Milan é mil vezes melhor do que a da Colômbia.

Ao unir a fantasia e o espetáculo com a eficiência e o jogo coletivo, Ronaldinho Gaúcho está reinventando o futebol.

Ronaldinho Gaúcho tem muito dos dribles do Rivelino, da visão espacial e dos passes do Gerson, da alegria e irreverência do Garrincha, da velocidade, habilidade e força física do Jairzinho e do Ronaldinho, da técnica excepcional do Zico e da inventividade do Zidane e do Romário. Para ser mais completo, Ronaldinho Gaúcho precisa fazer mais gols.

Os três melhores do mundo são os dois Ronaldinhos e o Zidane. Como a eleição é para melhor do ano, votaria no Ronaldinho Gaúcho. Shevchenko seria o segundo, e Thierry Henry, o terceiro.

Shevchenko e Henry fizeram partidas maravilhosas no Milan e no Arsenal, mas Henry atuou mal na maioria dos jogos da seleção francesa, principalmente na Eurocopa. Além disso, é mais fácil brilhar no Arsenal, time que gosta de fazer muitos gols e que enfrenta fracos adversários, do que se destacar no Milan, que se contenta em ganhar por 1 a 0 e que joga contra defesas mais fortes.

O Campeonato Inglês é tão organizado, tão disciplinado, com estádios tão cheios e com gramados tão perfeitos, que até parece que a maioria das equipes joga um bom futebol. Elas me fazem lembrar times de botão, em que os jogadores nunca saem da posição e só dão dois toques na bola: dominam e passam. Raramente driblam.

Outro motivo para não se votar no Thierry Henry é a comemoração de seus gols. Ele fica imóvel como uma estátua metida à besta. Nem pisca. Gostaria de entender as suas motivações inconscientes e conscientes para este gesto tão mumificado, incompatíveis com a catarse e a alegria incontida de um gol.

Nada mais gostoso na comemoração de um gol do que gritar, chorar, xingar, correr para a galera e tirar a camisa, como fez o Ronaldinho contra o Milan. Ele só não pode ficar totalmente nu. Seria a completa liberdade. Só os loucos são livres.

Ética e favorecimento

Na vida e no futebol, temos o hábito de rotular as pessoas de boas ou más, conservadoras ou progressistas, otimistas ou pessimistas, craques ou pernas-de-pau e muitas outras ambivalências. Na maioria das vezes não é uma coisa nem outra. A vida se passa muito mais nas entrelinhas do que nos extremos.

Noto ainda que as pessoas são muito mais analisadas do que os fatos. Cidadãos muito respeitados são elogiados por tudo que fazem ou dizem, mesmo se for uma besteira. Já os de má fama são criticados, mesmo quando dizem algo interessante.

Hoje, vou cometer uma loucura e criticar o meu ídolo Bernardinho, unanimidade nacional e o esportista, merecidamente, mais elogiado no Brasil.

Assim como um comentarista de esportes, de economia ou de política não deveria ser um garoto-propaganda nem participar de entidades públicas e privadas que têm qualquer relação com a sua função, um treinador em atividade, principalmente da Seleção Brasileira, como Bernardinho, não deveria privilegiar nenhum órgão de imprensa nem trabalhar de comentarista ou apresentador numa emissora de televisão. Ser convidado para esporádicos programas é bastante diferente.

No futebol, técnicos e jogadores dos clubes e da Seleção, influenciados por dirigentes e marqueteiros, estão sempre na Globo. O problema não é da emissora. Qualquer outra na mesma situação buscaria aumentar a sua audiência. Nem o fato diminui a excelente qualidade da equipe esportiva da Globo. Mas é injusto esse privilégio.


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[07/NOV/2004]


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