O Real Madrid tem tantos craques e um estilo tão encantador, que nem precisa vencer. A vitória é um detalhe. Pelo menos para quem não torce, nem está preocupado com o resultado e só quer curtir a beleza do futebol.
Na temporada passada, além do Roberto Carlos, o Real tinha quatro craques do meio para frente: Zidane, Ronaldinho, Raul e Figo. Hoje, tem mais dois talentos com as entradas do Beckham e Gutti nos lugares dos volantes Makelelê e Helguera.
Beckham jogava de meia direita no Manchester United e Gutti era reserva do Raul e do Ronaldinho. Agora, Beckham e Gutti são volantes. Mas não se destacam pela marcação e sim pelo passe. Com os dois, o Real ficou melhor no ataque e pior na defesa.
Alguns acham que o Parreira deveria fazer o mesmo e escalar os habilidosos meias ofensivos que estão na reserva de volantes. Dos meias, só o Juninho Pernambucano teria chances de ser um bom volante. Ele já jogou nessa posição.
Os volantes são essenciais. Não são essenciais os volantes que só sabem desarmar ou fazer faltas e que não têm um bom passe. São eles que iniciam os contra-ataques. Os passes longos do Beckham são espetaculares. Gilberto Silva, Emerson e Zé Roberto não têm essa qualidade. A maioria dos volantes, em todo o mundo, demora demais para dominar a bola, ajeitar o corpo e tocar para o lado.
O time encantador e ofensivo do Real Madrid corre grande risco de ser derrotado na Copa dos Campeões por outras grandes equipes mais equilibradas, pragmáticas e que têm também alguns craques, como Milan e Juventus. No ano passado, o Real foi eliminado pelo Juventus.
Mas se o time espanhol conquistar o título, muitos técnicos vão rever os seus conceitos e começarão a escalar volantes com mais talento. O futebol ficará mais bonito.
A alma e a intuição
Na coluna anterior, escrevi que o Robinho já é um Denílson melhorado. Preciso explicar melhor. Denílson é um excelente jogador, mas não é o craque que imaginei que seria, quando surgiu no São Paulo. Relacionei os dois por causa de algumas características comuns, como o drible, a velocidade e o posicionamento em campo.
No início, Denílson encantou no São Paulo tanto quanto Robinho. Na época, Denílson me afirmou numa entrevista que se tornaria o melhor jogador do mundo. Aí citei suas muitas deficiências e ele concordou. No final, lhe disse, com ironia: ''Acho que você vai ter de treinar muito para ser o melhor do mundo''.
Denílson melhorou pouco, não se tornou um craque e muito menos o melhor do mundo. É um ótimo jogador. Foi (ou é) uma boa opção na Seleção em determinados momentos. Robinho, ao contrário, evoluiu rapidamente e já é um Denílson melhorado. É mais criativo, atua pelos lados e pelo meio, passa e finaliza melhor.
Se Robinho já pode ser chamado de craque, é uma discussão conceitual. Com exceção dos super-craques, acho que um talentoso atleta só deveria receber o nome de craque após brilhar numa grande equipe durante muitos anos. Não podemos esquecer também que a qualidade da maioria das equipes do Brasil é muito inferior ao verdadeiro futebol brasileiro, que está na Europa.
Por isso, para ser coerente e racional, escrevi que o Robinho é quase um craque. Porém, se quiserem saber o que pensam a minha intuição e a minha alma, elas dirão que o Robinho já é um cracaço.
Mistério das coisas
Quase todas as equipes fazem no Campeonato Brasileiro o que se esperavam delas. Essa é uma característica da fórmula por pontos corridos. Até o Goiás, na média dos dois turnos, faz uma campanha compatível com as suas qualidades.
Todas as principais equipes perderam jogadores importantes durante o campeonato e se enfraqueceram, mas mantiveram a eficiência em relação às outras. Só o Corinthians foi totalmente desfigurado.
O Goiás é o único time que atua com dois jogadores velozes e hábeis pelos lados e um centroavante. Quando o time perde a bola, Araújo e Grafite recuam e marcam o lateral adversário. Só o Dimba fica fixo na frente. Esse desenho tático é ótimo quando se tem jogadores com essas características.
Porém, o esquema tático não é o segredo do Goiás. É apenas um detalhe técnico. O time não tem mistério. ''O único sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum. As coisas não têm significação; têm existência'' (Fernando Pessoa).