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Cochrane, Iraque e Rachel


Estava lendo um livro das guerras da Independência, a narrativa No Libertar-se o Brasil da Dominação Portuguesa, de um sujeito pelo qual não tenho nenhuma simpatia: um tal de Lord Cochrane, como diria Juan Rulfo, ao falar de Pedro Páramo. É que ele foi contratado pelo imperador Dom Pedro para fazer o que tinha feito no Chile, participar das lutas pela consolidação da Independência, é claro que pago e muito bem, como sempre exigiam os almirantes ingleses, chamados por alguns de piratas.

Ele chegou ao Maranhão para fazê-lo aderir à Independência. Destituiu o presidente da província, exigiu resgate da cidade e, alegando que o Império não lhe pagava o que devia, fugiu com a gaita para a Inglaterra. A memória de São Luís o tem, até hoje, como saqueador. O nosso Dom Pedro I deu-lhe o título de Marquês do Maranhão, o primeiro agraciado da grande lista dos nobres brasileiros. Está sepultado na Abadia de Westminster, com direito a lápide: ''Lord Cochrane - Marquês do Maranhão''. Olhei, passei ao lado, resmungando, ''corsário!''.

Nas memórias, que o Senado agora pública nas suas extraordinárias edições de obras raras, ele confessa que pilhou a cidade, ''assunto que para mim há sido causa de tanta censura''. Desculpa-se: isso poderia ''representar-se como um roubo escandaloso, apesar de não ser mais que um quarto da soma devida (a ele) pelo Império brasileiro''.

Alegava Cochrane que ''a Junta da Fazenda mandou-me uma comunicação verbal dizendo que dariam a quantia concordada em comutação pelo dinheiro de presas devido aos tomadores. Sabendo eu que, em caso de ir-me embora'' - o que ele fez -, ''tais letras não valeriam o papel em que fossem escritas, rejeitei a oferta''. E sem maior reserva orgulha-se de ser ''um homem que havia sido contratado sob a estipulação expressa do direito às presas''.

Não satisfeito com isso, justifica o saque do Maranhão por ter encontrado a esquadra ''com demoras nos pagamentos, que eram o triplo das contas contratadas'', tudo justificado, já que, ''o governo não pagando em dia, eles tinham de aumentar o preço''. Coisas de antigamente. Falava mal da Junta da Fazenda, contando coisas que hoje seriam inconcebíveis : ''Ela possui tão baixo crédito que suas letras têm sido vendidas a trinta por cento de desconto, e sou crivelmente informado que em tempo nenhum se pode receber dinheiro do Tesouro sem se pagar uma forte percentagem aos empregados inferiores''.

Era o motivo para a pilhagem. O governo não pagando, pagavam os particulares saqueados. Aliás, esse negócio de presas de ocupação está sendo utilizado ainda hoje no Iraque. Em vez das pobres jóias maranhenses, o petróleo. E o Sr. Dick Cheney tem direito, também, a suas empresas.

É nessas leituras e meditações que sofro a comoção da morte de Rachel. Santa de altar, Nossa Senhora da Academia, e deusa da nossa literatura. Lembro-me da Rachel, escritora magistral e figura humana dessas que em 100 anos acontecem apenas poucas vezes. Nos últimos dias, dizia a Emília Lobato, que lhe propunha trazer um queijo da França, o brie, de que tanto ela gostava: ''Não traz não, isso é coisa que só é boa no pé''.

E me advertiu quando falou do Álvaro Pacheco: ''Cuidado com os poetas, Sarney, eles gostam de fazer a gente sofrer, cantando dores que não sentem''.

Raquel, adeus. E a Lord Cochrane, nem aí!


[07/NOV/2003]


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