Acreditava-se que, quando tudo chegasse ao fim e as sete pragas do Egito definitivamente se abatessem sobre a Terra, restariam os apreciadores do vinho. Quando não houvesse pedra sobre pedra e mesmo os seres mais resistentes - como as baratas, os vermes de intestino e os vendedores de pamonha - já tivessem batido no chão e pedido penico, ainda assim sobrariam os experts em vinho. São persistentes, os caras. Ou corporativos ao extremo, vá lá. Dizem que estavam por aqui antes mesmo do aparecimento da uva. Além de contarem com abrigo de caves e adegas que resistiram a pelo menos duas guerras mundiais. Pareciam infinitos.
Mondovino, documentário que estréia amanhã no Rio, mostra que a história não é bem assim.
Mondovino é um racha no mundo do vinho. Não é filme pra degustador. Pelo que me lembro, não se pronunciam uma única vez palavras idolatradas por enólogos de botequim, como bouquet, tanino e frutado. Fala-se de vinho. E negócios. O documentário cospe no chão e põe de um lado os produtores tradicionais da França e da Itália e do outro os produtores poderosos da Califórnia, representados pela família Mondovi. No meio do tiroteio, o enólogo Michel Rolland (responsável pela padronização da bebida e tratado como um médico de plantão, pronto para microoxigenar tonéis morimbundos) e críticos capazes de transformar suco de uva em obra de arte. Mais que tudo, o diretor Jonathan Nossiter mira na globalização. Mas, meio zarolho, acertou também nos sommeliers de araque. Como eu.
Jonathan - que confessa ter tomado alguns pileques durante as filmagens - usa o vinho como símbolo para a encruzilhada em que está metido o mundo globalizado. Somos todos otários. De um jeito ou de outro, o filme joga por terra tudo aquilo que as cartilhas distribuídas no mercado Zona Sul teimam em nos ensinar sobre a bebida. Não há nota de baunilha que resista à constatação de que tudo é feito para agradar ao gosto comum. E tudo o que um aprendiz de sommelier não quer é parecer comum. Por isso a gente passa o filme inteirinho torcendo para os pequenos produtores de Bordeaux e Borgonha como se estivéssemos diante do nosso time de coração. E, é triste mas é verdade, nosso time de coração joga no arrepiante esquema tradição, família e propriedade.
Mas é justificável. Admitir a interferência de especialistas estrangeiros no produto nacional é mais ou menos como deixar gringos meterem a colher na receita do bobozinho do Bracarense ou no ponto do baião-de-dois da barraca do Tião na Feira de São Cristóvão, ou deixar que modifiquem a quantidade de alho no filé a Oswaldo Aranha do Lamas. Não dá. Mondovino - um documentário em aberto e não uma tese para comprovação - mostra um mundo dividido entre experts e espertos. Sem vaga para amadores. Ainda que Jonathan Nossiter, fora da tela, possa reivindicar o seu lugar entre eles.
Jonathan é, ele mesmo, um retrato fiel da globalização. Nasceu em Nova York, morou em Paris, Florença (''O turismo está transformando o lugar numa Disneylândia''), Madri e Índia. Casou-se com uma paulista, torce para o Corinthians e agora vive no Rio de Janeiro. Mora no Horto. Está bem por aqui. Gente boa. Aprendeu rapidamente expressões caras à nossa língua como ''generosidade'', ''felicidade'' e ''vê se me liga''. Mais que tudo, anda trocando o vinho pela caipirinha de limão. Pronunciada com til e tudo.