Cinco minutos de programa sobre o mundo animal podem revelar mais sobre a natureza humana que 10 horas de documentários da BBC.
Pet Show, uma espécie de
Raul Gil versão Animal Planet, comprova isso. Passa no canal 69 da Net. É um show de calouros dominado por bichinhos obedientes: cachorrinhos que plantam bananeiras, jabutis que fazem peruca com uma folha de alface, papagaios que deduram vizinhos que deixam lixo na calçada. Umas gracinhas. Até que chegou Joe, o peixinho azul.
Joe estava ali - para surpresa da platéia - disposto a pular para fora do aquário. Uma espécie de suicídio via satélite. Sua dona explicou o troço: ''Estava cansada de vê-lo nadar em círculos e pensei que sua vida deveria ir além disso. E decidi ensiná-lo a pular''. A mulher - uma senhora de óculos, vestido florido e evidentes boas intenções - passou então a ordenar que Joe pulasse. A platéia aderiu: ''Jump Joe, jump Joe''. O peixe parecia desconfiado. Às vezes ia até o fundo do aquário, como se tomasse fôlego para pular, e voltava a nadar em círculos. Não pulou uma única vez.
Joe tinha livre arbítrio, mais ou menos o que, com o perdão da má palavra, movia o personagem de Javier Badem em Mar adentro. Viver, morrer, nadar, pular ou dar uma banana para o público era uma questão de escolha pessoal. Parecia óbvio que passar a vida nadando em círculos no aquário não era a mais fascinante das vidas, mas era o que Joe queria fazer. Tinha suas razões: discrição, comodidade, esperteza. Na luz difusa do fundo do aquário, Joe encarava a platéia (eu inclusive) com o orgulho que só os teimosos possuem. E, lá do jeito dele, mandou a gente catar coquinhos.
É possível que Joe, enfim, tenha dado seus pulinhos acrobáticos assim que chegou aos bastidores. É possível também que tenha sido assassinado pela raiva inconsolável da senhora de vestido florido. Mas, o mais provável é que, movida pela comiseração, a mulher o tenha levado para casa, onde deixou que seguisse sua vida comum de círculos no aquário, pedrinhas coloridas e pão-de-ló. Longe da televisão e dos exigentes jurados do concurso de calouros. Uma gente que lhe conferiu uma média 5,5, a mais baixa de todos os participantes. E Joe perdeu o prêmio para uma arara que imitava uma jaguatirica.
Achei injusto. No show de talentos, Joe mostrou possuir uma qualidade rara entre os bichos amestrados, homens inclusive: a modéstia. Joe era modesto. E autêntico. Não imitava coisa alguma. Queria ser peixinho de aquário, cacilda, e não um golfinho de Miami. Ou uma foca. Queria passar a vida comendo as migalhas no fundo do aquário. Sem holofotes, sem cobranças exageradas, sem o perigo óbvio que aflige um peixe fora d'água.
Daí que o programa do Animal Planet é bem mais instrutivo que o noticiário exibido pela TV Senado, por exemplo. E Severino Cavalcanti, o presidente da Câmara, tem muito o que aprender com nosso Joe. Os peixinhos de aquário são uma espécie de baixo clero do mundo animal. Arraia miúda. Não alçam grandes vôos, mas possuem, de um modo geral, a sabedoria dos que vivem em troca de pequenos favores. Toma lá dá cá. Ou é dando que se recebe. Um rodopio entre as algas vermelhas pode render uma semana de ração extra e a garantia de águas eternamente limpas, gêneros de primeira necessidade no mundo submarino. Não latem como os cães, não são espertos como os gatos, não são barulhentos como as maritacas. Vivem escondidos. Mas vivem bem.
Severino vivia assim. Mas deu o pulo que Joe se recusou a dar. Até então, poucos sabiam de suas incursões contra a Igreja progressista, contra as pesquisas com célula-tronco, contra os gays em geral. Poucos sabiam também que Severino era compadre do Maluf, que era amigo do Garotinho, que já beijara a mão de Antônio Carlos Magalhães. Poucos sabiam que Severino era a favor do aumento dos deputados. E que gostava de buchada. E que palitava os dentes em público. E que era careca. E barrigudo.
Ao contrário do que se imagina, é provável que colocar o baixo clero sob os holofotes tenha sido a melhor saída para a democracia brasileira. E, sei não, acho que logo logo Severino vai ter uma baita saudade da vida no fundo do aquário.
’Poucos sabiam das incursões de Severino contra a Igreja progressista, as pesquisas com célula-tronco, os gays. Poucos sabiam também que era compadre do Maluf, amigo do Garotinho e que já beijara a mão de ACM‘