Fora os Jetsons - com suas previsões de um mundo feliz, cheio de minissaias rodadas, botinhas brancas, celulares de última geração, carros voadores e nenhum engarrafamento no trânsito - a ficção científica costuma ser pouco camarada com o futuro. Cruel, quase sempre. O cinema já decretou o fim da humanidade algumas vezes, desde que Fritz Lang traçou sua
Metropolis num preto-e-branco sombrio. É um filme de 1926, pré-quebra da Bolsa, época em que os americanos bebiam champanhe no gargalo e a Europa, ferrada pela 1ª Guerra, plantava as sementes do nazi-facismo. Fritz intuiu que, de algum jeito, o totalitarismo acabaria levando vantagem. De lá pra cá o negócio não mudou muito. Filmes como
Blade runner, de Ridley Scott,
Até o fim do mundo, de Wim Wenders, e mesmo o cínico
Alphaville, de Jean-Luc Godard, batem na mesma tecla. Somos idiotas que não sabemos o que fazer com o paraíso que largaram em nossas mãos.
Código 46, lançado nessa virada de 2004 para 2005, é uma mistura disso tudo. É infeliz, desesperançado, complicado e implacável com nossas chances de felicidade. É um filme triste. Mas há a atriz Samantha Morton. E seus olhos de bola de gude.
Para quem não está ligando os olhos à pessoa, Samantha Morton tem 27 anos, é irlandesa, usa quase sempre o cabelo raspado com máquina 2 e deu pistas de seu talento em Poucas e boas, de Woody Allen. Um papel que lhe rendeu uma indicação para o Oscar de coadjuvante em 2000. Seu rosto ficou mais conhecido, porém, em Minority Report, filme de Steven Spielberg baseado em argumento do mesmo Philp K. Dick de Blade runner. Era um filme confuso, passado num 2054 em que os crimes poderiam ser previstos mas nem sempre evitados. Samantha era Agatha, uma paranormal (chamados ali de precogs) capaz de prever o futuro e indicar onde ocorreriam os crimes. Ela passa metade da trama imersa numa banheira. Na outra metade, é arrastada de um lado para outro como uma boneca inflável. Era assustadora e linda. Já possuía os olhos azul piscina. Já possuía a cara redondinha de jogador de futebol inglês. Já era tão talentosa quanto um Michael Owen, por exemplo. E já era capaz de fazer chorar.
Como fez em Terra de sonhos (In América), de Jim Sheridan. Ali, Samantha tinha o papel de uma irlandesa que partia com a família para tentar a vida em Nova York. Moravam num apartamento esculhambado, num prédio de escadas compridas, com um ar-condicionado que, se ligado na potência máxima, poderia levantar vôo com o prédio inteiro. Mas estava quebrado, o ar. Eles também. Duros. Tinham um vizinho negro, fascinante e doente. Tinham filhos tristes. O marido, um romântico com um pé na demência, acreditava em contos de fada. Uma vida miserável, mas que parecia valer a pena quando olhávamos a atriz em cena. Havia ali uma promessa de felicidade que nem toda a ziquezira enfrentada pelos personagens era capaz de destruir. Ela era gordinha e era um encanto. Do quinto dos infernos, Samantha Morton prometia o céu.
Em Código 46, de Michael Winterbottom, o mundo, pelo menos o mundo feliz, também parece estar com os dias contados. E a felicidade de Samantha também. O filme projeta um futuro em que as pessoas vivem em ilhas cercadas de miséria por todos os lados. Só quem possui passaportes especiais consegue trafegar por esses lugares. Há uma lei - com o tal código 46 - que impede o relacionamento de pessoas com códigos genéticos semelhantes. Não há países, necessariamente, mas um mundo de inclusão e outro de exclusão. Os excluídos estão em toda a parte. A miséria também. Tim Robbins é William, um investigador americano, casado, escalado para desvendar fraudes na emissão de passaportes em Xangai. Samantha é Maria, a garota que dá os golpes. Os dois se apaixonam e fazem um sexo suado num apartamento do tamanho de uma ratoeira. Sorriem pouco. Sabem que nada dará certo. Como a humanidade de um modo geral, os dois não têm a menor chance de felicidade. E dá uma raiva desgraçada disso.
Não tenho nada contra ficção científica. Não mesmo. Na verdade, até gosto dos filmes listados acima. O que não gosto muito é do pessimismo como ideologia. Mesmo quando acertam. Fritz Lang bateu na trave, George Orwell errou no ano mas acertou no resto em 1984. Mesmo Código 46, com sua visão niilista do amor e da segregação social, não está totalmente equivocado, e quem se interessa por células tronco ou já atravessou a Linha Vermelha sabe o que é isso. Mas, na boa, muitas vezes eu quero ser enganado. Quero ser otário e iludido. Mané mesmo. Quero ir e vir. Não quero substituir o sexo (com cheiro, cuspe, constrangimentos, pezinhos delicados e prazer) por uma droga qualquer. Não quero que sirvam minha rabada com agrião numa cápsula. Prefiro pensar que isso jamais acontecerá. Mesmo sabendo ser um pesadelo tão irreversível quanto a cozinha catalã, a música eletrônica e a moda dos filmes de kung fu. Não é o fim do mundo, mas é quase. A salvação da humanidade não está nos céticos e brilhantes, mas nos otários. E nos românticos. Por isso, comprei uma cueca nova (branca com coraçõezinhos em relevo) para usar no réveillon. Levo fé no futuro. Sempre haverá os Jetsons. E sempre haverá uma Samantha Morton para nos fazer de trouxa.