Woody Allen e as calcinhas de Christina Ricci

[29/AGO/2004]

Woody Allen está velho, claro que está. Uma constatação óbvia, que pode ser feita por qualquer um dos 39.800 espectadores que foram assistir a Igual a tudo na vida nas duas primeiras semanas em cartaz. Pouca gente. Mas é mais ou menos a média do diretor nos últimos anos. Fora Todos dizem eu te amo, que bateu os 100 mil espectadores, o público de Allen está assim: menos exigente, menos barulhento e basicamente menor. Não se renova. Ao contrário do diretor que, em busca da imortalidade, tem usado a estratégia de se eternizar em personagens mais jovens.

Já fez isso com Kenneth Branagh em Celebridades. Agora usa Jason Biggs, de American Pie. O ator fala, gesticula e gagueja como Allen. Um Allen de ombros mais largos, é verdade. E mais cabelos. É uma saída conveniente à beça. Allen se aproveita da juventude do personagem para repetir suas velhas obsessões sobre amor, sexo e religião. E, de quebra, ainda consegue dar uma espiada nas calcinhas da Christina Ricci.

Christina Ricci está de calcinha, esparramada na poltrona. É uma calcinha de algodão, certamente. Do tipo larga, branca, antiguinha, talvez tenha perdido o elástico. Está fantástica ali, os pés jogados por cima dos braços da poltrona, dedos arrematados com esmalte discreto. Ela fala, simplesmente. Nos filmes de Allen todos falam muito. Não importa o que dizem.

Jerry Falk, o personagem de Jason Biggs, está de olho na calcinha e nos pés de Christina Ricci. É uma seqüência mais íntima do que toda a cena da geladeira de 9 semanas e meia de amor, por exemplo. Jerry não fala. Pensa. Carácoles! Um sujeito que outro dia estava fazendo sexo com uma torta de maçã, agora está diante da calcinha e dos pés redondinhos de Christina Ricci. E com um texto de Woody Allen para dizer em off.

Igual a tudo na vida é o melhor filme de Woody Allen em anos. Não que os outros sejam ruins, certamente não são. Mas há muito tempo Woddy Allen não é tão Woody Allen. Nem tão engraçado. Em filmes como Desconstruindo Harry, O escorpião de Jade ou Dirigindo no escuro, o autor partia de uma idéia bem sacada para justificar sua assinatura.

Mesmo em Todos dizem eu te amo, fingiu fazer um musical para falar sobre seu tema mais recorrente: o homem que se apaixona pela garota errada (e a garota era a Julia Roberts, o que deve justificar o sucesso de bilheteria). Aqui não. Aqui é Allen falando do que conhece. Ou do que quer conhecer.

No filme, ele vive um comediante da antiga que tenta se juntar a roteirista em ascensão. Os dois estão aprisionados por manias, decepções e, no caso do jovem, um empresário espertalhão (Danny de Vito, com pelo menos uma cena antológica).

Allen e seu pupilo caminham no parque enquanto o veterano conta piadas, lembra seu passado, dá conselhos malucos, se envolve em encrencas no trânsito. É Allen conversando consigo mesmo, é Allen fazendo o que sempre fez. Só que mais novo. É a perpetuação da espécie.

Woody Allen é certamente o cineasta do subjetivismo. Alguns - como Truffaut ou, filosoficamente, Godard - já usaram o cinema para tratar de suas obsessões. São autores. Nunca, porém, ninguém esteve tão dentro do filme como ele. Allen é aquilo que roteiriza, filma e interpreta. Tem gente que vê nisso mera repetição. Outros vêem estilo (ou malandragem, vá lá). Não é uma coisa nem outra. É vida.

Allen simplesmente filma o que o faz viver: amor como solução, Deus como redenção, sexo como vocação e os judeus como interrogação. Ou tudo isso misturado. É repetitivo? Até é. Mas, como se sabe, é igual a tudo na vida. Até mesmo porque as coisas permanecem onde sempre estiveram: Deus continua ausente, os judeus continuam em guerra, os amores continuam impossíveis e as garotas insistem em usar calcinhas largas de algodão.

  • Da série Português é uma língua muito maluca: por que temos tendência em falar e escrever calcinhas, assim no plural, para nos referirmos a uma peça só? Afinal, é ''a calcinha de Christina Ricci'' ou são ''as calcinhas de Christina Ricci''? Cartas para a redação.

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