E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Coisas da Política
Tasso prevê alta tensão

Tostão
O básico e o extra

Informe JB
Interatividade real

Cartas
Discriminação

Horóscopo

Contos Mínimos
Poesia e música

Gente
Afinidade artística

Charge Online

Marcia Peltier
Um rolo só

Emir Sader
Os dilemas imperiais

Augusto Nunes
A hora dos omissos certamente chegará

Nas Páginas da História
29 de agosto no JB

Boechat
Derrubada

Gilberto Amaral
Herança maldita

Estilo Iesa
Mala de viagem

Antonia
Enochatos

Paulo Blank
Desorganismo humano

Domingo Listas
Dez atos de loucura - versão nacional

Renato Lemos
Woody Allen e as calcinhas de Christina Ricci

 


Woody Allen e as calcinhas de Christina Ricci


Woody Allen está velho, claro que está. Uma constatação óbvia, que pode ser feita por qualquer um dos 39.800 espectadores que foram assistir a Igual a tudo na vida nas duas primeiras semanas em cartaz. Pouca gente. Mas é mais ou menos a média do diretor nos últimos anos. Fora Todos dizem eu te amo, que bateu os 100 mil espectadores, o público de Allen está assim: menos exigente, menos barulhento e basicamente menor. Não se renova. Ao contrário do diretor que, em busca da imortalidade, tem usado a estratégia de se eternizar em personagens mais jovens.

Já fez isso com Kenneth Branagh em Celebridades. Agora usa Jason Biggs, de American Pie. O ator fala, gesticula e gagueja como Allen. Um Allen de ombros mais largos, é verdade. E mais cabelos. É uma saída conveniente à beça. Allen se aproveita da juventude do personagem para repetir suas velhas obsessões sobre amor, sexo e religião. E, de quebra, ainda consegue dar uma espiada nas calcinhas da Christina Ricci.

Christina Ricci está de calcinha, esparramada na poltrona. É uma calcinha de algodão, certamente. Do tipo larga, branca, antiguinha, talvez tenha perdido o elástico. Está fantástica ali, os pés jogados por cima dos braços da poltrona, dedos arrematados com esmalte discreto. Ela fala, simplesmente. Nos filmes de Allen todos falam muito. Não importa o que dizem.

Jerry Falk, o personagem de Jason Biggs, está de olho na calcinha e nos pés de Christina Ricci. É uma seqüência mais íntima do que toda a cena da geladeira de 9 semanas e meia de amor, por exemplo. Jerry não fala. Pensa. Carácoles! Um sujeito que outro dia estava fazendo sexo com uma torta de maçã, agora está diante da calcinha e dos pés redondinhos de Christina Ricci. E com um texto de Woody Allen para dizer em off.

Igual a tudo na vida é o melhor filme de Woody Allen em anos. Não que os outros sejam ruins, certamente não são. Mas há muito tempo Woddy Allen não é tão Woody Allen. Nem tão engraçado. Em filmes como Desconstruindo Harry, O escorpião de Jade ou Dirigindo no escuro, o autor partia de uma idéia bem sacada para justificar sua assinatura.

Mesmo em Todos dizem eu te amo, fingiu fazer um musical para falar sobre seu tema mais recorrente: o homem que se apaixona pela garota errada (e a garota era a Julia Roberts, o que deve justificar o sucesso de bilheteria). Aqui não. Aqui é Allen falando do que conhece. Ou do que quer conhecer.

No filme, ele vive um comediante da antiga que tenta se juntar a roteirista em ascensão. Os dois estão aprisionados por manias, decepções e, no caso do jovem, um empresário espertalhão (Danny de Vito, com pelo menos uma cena antológica).

Allen e seu pupilo caminham no parque enquanto o veterano conta piadas, lembra seu passado, dá conselhos malucos, se envolve em encrencas no trânsito. É Allen conversando consigo mesmo, é Allen fazendo o que sempre fez. Só que mais novo. É a perpetuação da espécie.

Woody Allen é certamente o cineasta do subjetivismo. Alguns - como Truffaut ou, filosoficamente, Godard - já usaram o cinema para tratar de suas obsessões. São autores. Nunca, porém, ninguém esteve tão dentro do filme como ele. Allen é aquilo que roteiriza, filma e interpreta. Tem gente que vê nisso mera repetição. Outros vêem estilo (ou malandragem, vá lá). Não é uma coisa nem outra. É vida.

Allen simplesmente filma o que o faz viver: amor como solução, Deus como redenção, sexo como vocação e os judeus como interrogação. Ou tudo isso misturado. É repetitivo? Até é. Mas, como se sabe, é igual a tudo na vida. Até mesmo porque as coisas permanecem onde sempre estiveram: Deus continua ausente, os judeus continuam em guerra, os amores continuam impossíveis e as garotas insistem em usar calcinhas largas de algodão.

  • Da série Português é uma língua muito maluca: por que temos tendência em falar e escrever calcinhas, assim no plural, para nos referirmos a uma peça só? Afinal, é ''a calcinha de Christina Ricci'' ou são ''as calcinhas de Christina Ricci''? Cartas para a redação.


  • Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

    [29/AGO/2004]


       Home > Colunas > Renato Lemos

    Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
    Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Carro & Moto
    Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas