O mundo hoje é realmente uma aldeia global. Estamos a segundos das notícias e das imagens do outro lado do planeta, isto quando não assistimos ao vivo a história acontecendo. Vemos, em um espaço de minutos, imagens de horror como as da guerrilha urbana no Iraque, e logo em seguida imagens de rara beleza como as do carnaval carioca. As imagens caminham rápido, mas o homem, a matéria, ainda depende dos meios de transporte que apareceram há muito tempo. Eles estão mais modernos e mais velozes e também mais confortáveis, mas continuam a levar tempo. É incrível como o homem moderno se acostumou à idéia de se tornar quase um nômade. Até recentemente uma viagem à Europa era a viagem de uma vida, planejada com antecedência, discutida com todos os amigos, esperada, fantasiada. Hoje, pegamos um avião para Paris como se estivéssemos indo ao interior do estado visitar algum parente. Procuramos países mais exóticos, experiências mais radicais, mais ousadas, mais perigosas para nos sentirmos diferentes dos outros milhões de indivíduos que viajam pelo mundo afora.
Você deve estar se perguntando o que o homem viajando pelo mundo tem a ver com esta coluna. Pois tem e muito. Estes milhões de indivíduos se sentam em um avião (a grande maioria deles), atravessam oceanos e durante este trajeto eles comem! E como comem! Os vôos são às vezes intermináveis, o espaço é pequeno e a gente se aborrece. E então nós comemos para passar o tempo. A democratização dos transportes aéreos criou um padrão na comida que é realmente ruim. Eu sempre me espanto como toda fruta servida em vôos (com exceção da laranja): é sempre verde. O melão é sempre impossível de ser comido, o mamão muito raramente está maduro, a única que se salva é aquela uva solitária que eles usam como enfeite. Durante anos as companhias tentaram servir comida de verdade. Elaboravam pratos, mudavam cardápios, davam opções variadas. Mas mesmo assim o resultado era sempre ruim. Carne supercozida, legumes também, arroz muito seco. A gente comia pela novidade, mas a comida não tinha muito sabor. O forno esquentava tudo a temperaturas altíssimas e não há sabor que resista. Comida de avião me faz pensar um pouco em comida de clube, a escolha é pouca, a gente não gosta muito, mas às vezes tem que comer e depois de muita gente reclamar a diretoria contrata outro cozinheiro, mas, em pouco tempo, tudo volta à rotina. Um famoso publicitário brasileiro definiu bem o que é comida de avião quando disse que não ia a um restaurante para dormir e viajar assim como não pegava um avião para comer bem. Companhias aéreas no Brasil e no mundo estão mudando de atitude e retirando os pratos, assumindo que não se pode servir algo realmente bom então é melhor ficar com o básico. Sanduíches simples, lanches que não envolvem cozimento. Algumas companhias americanas chegam a não servir absolutamente nada, o cliente leva seu sanduíche se quiser. O preço da passagem cai e você não é enganado. No Brasil uma companhia aérea só serve uma barra de cereais e uma bebida. Na primeira vez a gente se assusta, mas depois se acostuma e come aquele pão de queijo no saguão do aeroporto antes de embarcar. Uma outra companhia contrata chefes famosos para criar sanduíches e pratos - mas convenhamos, nem a criação inspirada do maior chefe resiste a um forno muito quente e uma embalagem de alumínio. É claro que se você viaja de primeira classe tudo melhora, mas isto é para uma minoria. Eu aprendi, depois de noites passando fome, que é melhor jantar bem em terra antes de pegar um vôo internacional. Os aeroportos estão mais modernos, com lojas, restaurantes, lanchonetes - enfim tudo que alguém precisa para subir no avião com o estômago em paz e satisfeito.