Esta coluna não pretende se tornar um obituário semanal de ''perdas irreparáveis'' ocorridas na terra do jazz. Mas não pode deixar de registrar a viagem derradeira de Percy Heath, um dos mais celebrados contrabaixistas do idioma musical. Percy - que foi, de 1952 a 1974, um quarto do Modern Jazz Quartet, o conjunto de jazz de câmera por excelência - morreu na semana passada, de câncer nos ossos, dois dias antes de completar 82 anos. Quinze dias antes, a morte levara, de repente, aos 58 anos de idade, o também baixista Niels-Henning Örsted Pedersen (NHOP), o dinamarquês chamado na Europa de o ''Paganini do contrabaixo''.
Dos grandes baixistas da mainstream moderna do jazz, Percy Heath foi o que teve vida mais longa. Oscar Pettiford foi-se aos 38 anos, em 1960; Paul Chambers aos 33, em 1969; Charles Mingus aos 57, em 1979; Ray Brown aos 76, em 2002.
Percy era o mais velho de um trio de irmãos músicos, base do conjunto The Heath Brothers. O grupo se apresentava em clubes e festivais, e gravou ótimos discos nas décadas de 80 e 90, quando o MJQ já se desfizera, só se reunindo em ocasiões especiais. Os irmãos Heath restantes são o notável saxofonista Jimmy, 78 anos, e o também consagrado baterista Al ''Tootie'', 69 anos.
No dia da morte do irmão, quinta-feira última, Jimmy e ''Tootie'' tinham compromisso no New Orleans Jazz and Heritage Festival. Não cancelaram o set. Subiram ao palco e dedicaram a Percy No end, um tema do trompetista Kenny Dorham. Jimmy Heath explicou: ''There's no end to the beauty''.
Percy e Jimmy Heath foram pioneiros do bebop, como sidemen de conjuntos do trompetista Howard McGhee (1947-48) e de Dizzy Gillespie (1950-52). O baixista começou a ter prestígio quando substituiu Ray Brown no quarteto formado por John Lewis (piano), Milt Jackson (vibrafone) e Kenny Clarke (bateria). Os quatro tinham integrado a grande orquestra de Gillespie do fim dos anos 40, e resolveram formar um combo cooperativo, denominado The Modern Jazz Quartet, sob a orientação musical de Lewis - refinado compositor e arranjador.
As primeiras gravações do MJQ para a Prestige Records foram feitas entre junho de 1953 e janeiro de 1955. A faixa mais célebre dessas sessões é Django - obra-prima do estilo de jazz concebido por John Lewis, em que aspectos formais da música erudita (fuga, contraponto) constituíam a moldura dentro da qual os jazzmen improvisavam. A assinatura de Percy Heath ficou indelével no interlúdio obrigatório de todas as versões da peça.
Percy participou de mais de 300 sessões de gravação, como integrante ou não do MJQ e dos Heath Brothers. Ele foi, por exemplo, o baixista da lendária sessão da véspera do Natal de 1954, em que Miles Davis e Thelonious Monk se defrontaram, num clima de animosidade, no registro de dois takes antológicos de The man I love.
Foi só exatamente há três anos que Percy Heath teve a oportunidade de gravar seu primeiro álbum como líder, mesmo assim na etiqueta indie Daddy Jazz Records. O CD, intitulado A love song, lançado no início de 2004, tem pouco mais de 40 minutos. O líder - que toca também violoncelo - tem a seu lado o irmão ''Tootie'', o jovem pianista Jeb Patton e o excelente contrabaixista Peter Washington.
Percy usa o violoncelo nos dois primeiros temas do disco, ambos de sua autoria: a faixa-título (sem acompanhamento) e Watergate blues (dos tempos do MJQ). Suite for pop é uma obra que escreveu como um tributo a seu pai, de 13 minutos de duração, dividida em quatro partes. Como não podia deixar de ser, o CD contém uma versão de Django, porém bem diferente dos usuais arranjos do MJQ, com Heath introduzindo o tema a capela.
Em recente entrevista publicada na Bass Inside Magazine, o sempre bem-humorado Percy Heath assim resumiu o álbum A love song: ''A única diferença entre esta e as outras 300 e tantas sessões de gravação em que toquei é que eu pude escolher a música e os músicos...''.