Apesar de afastado da cena jazzística desde os anos 50, o clarinetista Artie Shaw era a última das grandes estrelas da era do swing a resistir à erosão do tempo. Ele morreu semana passada, aos 94 anos, no seu retiro de San Fernando Valley, Los Angeles. As
big bands e grupos que liderou no fim dos anos 30, início dos anos 40, deram-lhe tanta fama, prestígio e dinheiro como a orquestra e os pequenos conjuntos que fizeram de outro clarinetista, Benny Goodman (1909-1986), o ''Rei do Swing''.
Em 1938, Arthur ''Artie'' Jacob Arshawsky chegou a destronar Benjamin David ''Benny'' Goodman por conta do sucesso de um disco em que interpretava, na face B, Begin the beguine (Cole Porter). A rodela de 10 polegadas e 78 r.p.m. vendeu mais de 1 milhão de cópias, e Artie Shaw começou a faturar uns US$ 60 mil por semana (uma respeitável fortuna na época), nos jukeboxes, rádios e apresentações públicas.
No embalo de Begin the beguine, vieram as gravações de Frenesi e Stardust, muito mais dinheiro e muitas mulheres. Shaw acumulou casamentos e divórcios com as atrizes Ava Gardner, Lana Turner e Evelyn Keyes, e mais outras cinco caras-metades, entre as quais a romancista Kathleen Winsor.
Benny e Artie nasceram pobres, em famílias de imigrantes judeus, mas tinham personalidades totalmente diferentes. Ambos foram instrumentistas excepcionais, tocando jazz, música clássica ou comercial. Mas enquanto Benny era um ''homem de negócios'' disciplinado na direção de suas ''empresas'', Artie tinha o savoir vivre de um intelectual assumido. Leitor voraz, foi também ótimo escritor, como atestam sua autobiografia (The trouble with Cinderella) e livros de contos (I love you, I hate you, drop dead! e The best of intentions).
Iconoclasta e ególatra - mas sempre lúcido - Shaw não deixava perguntas sem respostas e falava sem qualquer auto-censura. Uma vez, resumiu de forma brilhante a questão da individualidade do músico de jazz, não deixando de dar mais uma flechada no seu alvo predileto, Benny Goodman: ''Você pode ouvir dois compassos meus e dois de Goodman e vai logo saber quem está tocando. Um dia, tive um almoço com Benny, e ele só perguntava o que eu achava desse ou daquele clarinetista. Finalmente, eu disse: 'Benny, por que todo esse papo sobre clarinete?'. E ele retrucou: 'Bem, não é isso que a gente toca?'. Aí eu falei: 'Você toca clarinete, Benny, eu toco música'''.
Apesar da competição entre os dois grandes solistas e chefes de orquestras dos tempos do swing, Goodman e Shaw - talvez por serem judeus, e portanto vítimas constantes de discriminação - uniram-se na luta então perigosa contra a segregação racial nos conjuntos musicais.
Se Goodman consagrou-se definitivamente no Carnegie Hall, em 1938, com uma orquestra, um trio e um sexteto integrados pelos niggers Lionel Hampton, Charlie Christian e Teddy Wilson, Shaw teve o peito de enfrentar o Deep South com Billie Holiday como vocalista de sua big band, e contratou jazzmen negros da expressão dos trompetistas Roy Eldridge e ''Hot Lips'' Page.
Em 1954, em plena glória, Artie Shaw largou tudo e mudou-se para a Espanha, onde viveu de 1955 a 1960. Voltou aos Estados Unidos e dedicou-se à vida campestre e à literatura. Quando lhe perguntavam por que abandonara os palcos e os estúdios de gravação, respondia que não agüentava mais ter de tocar Begin the beguine ou Stardust, por exigências do público ou contratuais. Não queria ser mais ''vendido como o produto Artie Shaw''.
Em entrevista ao Los Angeles Times, em 1999, disse que seus prazeres musicais no fim da vida resumiam-se a ouvir as Variações Goldberg, de Bach, interpretadas por Glenn Gould, e o Quarteto em lá menor, de Beethoven. E com o seu típico desdém, acrescentou: ''As pessoas me mandam fitas. Eu as ouço e digo: 'Sim, uma outra diva... E daí?'. Os Beatles não fizeram muita coisa em matéria musical. É claro que escreveram canções bonitas, mas Jingle bells também é bonitinha''.
A arte do clarinetista Artie Shaw está muito bem documentada no CD The complete Gramercy Five sessions (RCA/Bluebird 7637). Das 15 faixas, as oito primeiras são do quinteto de 1940, com o primoroso Billy Butterfield (trompete) e Johnny Guarnieri (cravo). Os sete outros números são de 1945 (Roy Eldridge, trompete; Dodo Marmarosa, piano; Barney Kessel, guitarra), entre os quais dois takes de Mysterioso - composição do próprio clarinetista, e não a homônima de Thelonious Monk.