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Albert Ayler, o saxofonista que poucos ouviram

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Albert Ayler, o saxofonista que poucos ouviram


Na edição de outubro da Down Beat, o crítico John Corbett escreveu um artigo intitulado Flores para Albert: reconsiderações sobre o legado de Albert Ayler. O gancho do artigo é o inesperado lançamento de uma caixa de 10 CDs (Holly ghost, Revenant 213) com 56 faixas inéditas e fragmentos de entrevistas de um dos músicos mais extraordinários - e certamente o mais maudit - da revolução conceitual que abalou o jazz establishment na década de 60.

Quando se fala na explosão do free jazz, os nomes mais citados são os de Ornette Coleman, John Coltrane, Cecil Taylor, Archie Shepp e Eric Dolphy. São raros os jazzófilos que têm alguma intimidade com a obra do saxofonista Albert Ayler, nascido em 1936 e encontrado morto, em 1970, boiando no Rio Hudson.

Como só alguns experts e colecionadores dispostos a pagar mais de US$ 100 terão acesso à luxuosa caixa de CDs, que inclui um verdadeiro livro de 208 páginas, a discografia básica de Ayler (registros feitos pela ESP, pela Fontana francesa e por alguns selos indie europeus) continua praticamente inacessível, apesar de esparsas reedições de tiragem limitada.

Da mesma forma que o amante padrão da música erudita cerra os ouvidos, até hoje, a composições ''modernistas'' de Schoenberg e Stravinsky, compostas há quase um século, o ouvinte de jazz, de um modo geral, desconhece Albert Ayler ou considera suas improvisações ininteligíveis e chocantes.

Ayler fixou, uma vez, sua posição entre os principais criadores do free jazz, quando a então new thing passou a ser divulgada em bem produzidos LPs pela etiqueta Impulse: ''Trane (John Coltrane) foi o pai; Pharoah Sanders, o filho. Eu fui o Holly Ghost (Fantasma/Espírito Santo)''.

Holly Spirit, Ghosts, Spiritual unitiy, Spirits rejoice são títulos de temas recorrentes nos discos daquele cuja música radicalmente expressionista está para o jazz como o célebre quadro O grito, de Edvard Munch, está para as artes plásticas.

As primeiras obras-primas de Ayler - devastadoras, aparentemente naïves - datam de 40 anos atrás. O único registro dessa época disponível em CD é Spiritual unity (ESP Disk/Caliber 1002), reprodução do LP do histórico selo indie de Bernard Stollman.

Ayler dizia que sua música não tinha nada a ver com notas, mas sim com ''sentimentos''. Em Spiritual unity, o trio do saxofonista tenor (com Gary Peacock, baixo; Sunny Murray, bateria) toca duas variações de Ghosts, Spirits e The wizard, expressando seus ''sentimentos'', na linguagem free, durante uma meia hora.

Infelizmente, a sessão de setembro de 1964, que gerou o LP Ghosts (Fontana), remasterizado em CD como Vibrations (Freedom/Arista), está fora de catálogo, assim como a de novembro do mesmo ano, gravada também em Copenhague, ao vivo, no Montmartre Cafe. Essas sessões (com a seção rítmica de Spiritual unity mais o trompete de Don Cherry) contêm versões alucinantes de Mothers, Children e Holly Spirit. As interpretações fundamentais de Ghosts (faixas de 2m05s e 7m25s) estão na sessão de estúdio de setembro de 1964.

A música de Ayler - revolucionariamente arcaica, prenhe do espírito gospel e do clangor das marching bands de Nova Orleans - é uma viagem vertiginosa. Sua pregação no sax tenor é rouca, nervosa, geralmente no registro agudo do instrumento, com silvos, honks, imprecações e lamentos dos blues shouters incorporados a um processo de expressão dramático, totalmente free. Sua obra influenciou diretamente a fase final de John Coltrane e está a merecer - como propõe John Corbett no artigo da DB - uma devida reapreciação.

Por falta de reedições acessíveis dos antigos álbuns ESP e europeus, o revolucionário saxofonista ainda é tido (mas não ouvido) como um jazzman excêntrico e marginal. Basta lembrar que alguém chegou a descrever um conjunto de Ayler, tocando ao vivo sua música iconoclasta, como ''uma bandinha do Exército da Salvação cheia de LSD''.


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[11/NOV/2004]


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