Em 1960, quando as trevas do
apartheid cobriam a África do Sul e a segregação racial ainda resistia em grande parte do Sul dos Estados Unidos, o pianista Dollar Brand e o trompetista Hugh Masekela foram os primeiros negros a formar um conjunto de jazz no país de Nelson Mandela - o Jazz Epistles.
Em 1962, o pianista nascido na Cidade do Cabo foi descoberto por Duke Ellington num clube de Zurique. Ellington apadrinhou-o e lançou seu primeiro LP pela etiqueta Reprise. Dollar Brand passou a freqüentar os festivais europeus (Montreux, Berlim, North Sea) e, em 1965, consagrou-se no Festival de Newport.
Em 1968, Dollar Brand tornou-se muçulmano e passou a se chamar Abdullah Ibrahim - nome pelo qual ficou conhecido como um fascinante pianista e compositor, líder do grupo Ekaya (''casa'', ''lar''), avesso a qualquer classificação estilística, cidadão do mundo refugiado numa espécie de claustro individual, seja em palcos de Nova York ou Cape Town, de Tóquio ou Paris.
Abdullah Ibrahim completou 70 anos de vida, no último sábado, como um dos mais respeitados intérpretes do jazz como aquele modo de expressão musical hoje universal, mas que preserva uma indelével identidade afro-americana.
Randy Weston, hoje com 78 anos, viveu algum tempo no Marrocos, na década de 70, para apurar ainda mais a africanidade do idioma musical que aprendera ouvindo spirituals, cantores de blues, Ellington e Thelonious Monk. Abdullah fez o caminho inverso, realçando - como nenhum outro - a ''proximidade'' entre Nova Orleans e Cape Town, entre o Harlem e Soweto.
A concepção musical de Ibrahim Abdullah é semelhante à de Weston e à de Andrew Hill. Nesses três grandes músicos é difícil separar o compositor e o improvisador. No entanto, a temática do africano é impregnada da nostalgia da diáspora, não só nos tempos lentos, mas também quando o ritmo é apimentado pelo batuque típico de Cape Town.
No plano da harmonia, o pianista cultiva aqueles preciosos acordes de mão cheia (oitavas e nonas intercaladas com terças, quintas e sétimas alteradas), que podem ser lidos nas transcrições de solos de Ellington e de Billy Strayhorn. Mas não rejeita - quando o tempo esquenta - dissonâncias monkianas e até clusters (cachos de notas) a la Cecil Taylor.
O crítico de jazz Peter Keepnews anotou que, na música de ''fusão natural'' do ex-Dollar Brand, ''nada soa gratuito ou arbitrário''. E completou: ''Sua música não é distorção híbrida em busca de audiência. Nem se trata de um aceno forçado a ouvintes negros que querem sua música negra, embora não contemporânea''.
Abdullah Ibrahim é um pianista-compositor cada vez mais sereno, senhor absoluto do tempo e do espaço musicais, como testemunharam os que assistiram às apresentações de seu trio, no Rio e em São Paulo, em maio de 2002, no Chivas Jazz Festival.
A música encantatória, hipnótica, que então ouvimos, está muito bem documentada no álbum African magic (Enja 3301), gravado ao vivo um ano antes, durante o festival Jazz Across the Border, realizado em Berlim. Nesse CD (com Belden Bullock, baixo; Sipho Kunene, bateria), Ibrahim interpreta, em forma de suíte, 15 de suas composições, unificadas por fragmentos de Blue bolero (que é a última faixa), além de referências a dois temas de Ellington (Solitude e In a sentimental mood). A suíte inclui The mountain e Tuang guru, temas típicos de Ibrahim, que podem ser apreciados também num antológico CD de 1985, Water from an ancient well (Enja/Tiptoe 8888), com o grupo Ekaya (Carlos Ward, sax alto, flauta; Ricky Ford, sax tenor; Charlie Davis, sax barítono; Ben Riley, bateria; David Williams, baixo).
Outro disco notável de Abdullah Ibrahim é Zimbabwe (Enja 4056), de 1983. Ao lado de Carlos Ward, Essiet Essiet (baixo) e Don Mumford (bateria), o pianista apresenta, além da faixa-título, outras memoráveis composições de sua lavra, como Bombella, Kramat e For Coltrane.