Stan Getz entre a ternura e a energia

[05/AGO/2004]

A Sum Records editou recentemente no Brasil o CD duplo Stan Getz/The final concert recording, gravado no Philarmonic Hall de Munique, em julho de 1990, meses antes da morte do grande saxofonista tenor, aos 64 anos, de câncer no pulmão.

Perguntam-me se esse registro fonográfico de ''Mr. Sound'' é realmente seu canto de cisne. E ainda se a qualidade da música produzida no concerto, de quase duas horas, não foi afetada pela doença que já minava a base do aparelho respiratório do músico, cujo sopro era uma mescla única de polidez e robustez, de ternura e energia.

The final concert não é o último disco deixado por Getz. Em 1992, a Verve lançou o CD duplo People time (510823), gravado igualmente ao vivo, em março de 1991, exatamente três meses antes da morte do saxofonista, no seu querido clube Montmartre, em Copenhague, em duo com o pianista Kenny Barron.

Barron foi o principal partner de Getz nos seus dez últimos anos de vida. Nas notas desse álbum, o pianista anotou que, naquelas quatro noites em Copenhague, documentadas em 14 faixas, o saxofonista tocava com grande esforço e sofrimento físico. Perdia literalmente o fôlego depois de cada solo. Mas, como escreveu Art Lange, ao comentar o derradeiro dueto de Getz e Barron (Down Beat, junho de 1992), ''não há aqui concessões à doença; os tempos são quase sempre rápidos, e Getz dá tudo o que pode dar'', com ''um palpável senso de urgência''.

Em Final concert recording, ''Mr. Sound'' estava, evidentemente, um pouco menos próximo da morte, em termos físicos e emocionais. O registro tem 14 temas (média de sete minutos por faixa), dos quais três foram também pontos de partida para o duo Getz-Barron de março de 1991 (Blood count, People time e Soul eyes).

Certamente por se tratar de um concerto destinado a um público mais heterogêneo, menos ''entendido'' que o de Copenhague, Getz lidera em Munique duas formações: um quarteto straight, com o piano irretocável e sempre presente de Barron, Terri Lyne Carrington (bateria) e Alex Blake (baixos); e o mesmo grupo, acrescido dos sintetizadores de Eduardo del Barrio e Frank Zottolik, a fim de recriar o clima orquestral do CD Apasionado - uma aventura comercial do saxofonista com o produtor Herb Alpert (A&M Records), que estava sendo lançado na época.

Assim, quatro das 14 faixas do CD duplo The final concert recording (Apasionado, Española, Coba e Amorous cat) são desqualificadas em termos puramente jazzísticos, embora o discurso melódico de Getz fosse eloqüente em qualquer situação.

O ideal seria que o disco 2 - com excelentes interpretações pelo quarteto de Voyage (o mais belo tema já escrito por Barron) e das baladas Blood count, People time e Yours and mine - pudesse ser vendido separadamente. E que as faixas El Cahon e Seven steps to heaven estivessem no disco 2, e não no disco 1, onde foram incluídas, juntamente com três das apelações sintetizadas produzidas por Alpert.

No entanto, The final concert recording é um documento musical relevante dos últimos meses na Terra de um gênio do sax tenor. Além disso, o CD duplo da Sum Records pode ser encontrado por preços que variam de R 18,90 a R 30,80. É só procurar nas lojas especializadas ou nos sites que vendem discos e livros.

Mas quem for mais seletivo e preferir o Stan Getz esplendoroso e definitivo, ainda com os pulmões funcionando a pleno vapor, que fique com os registros de uma noite de agosto de 1987, feitos no Montmartre de Copenhague, e que a EmArcy-Verve tornou disponíveis nos CDs Anniversary (838769) e Serenity (838770).

Esses dois álbuns constituem o coroamento de uma longa e extraordinária obra que começou, em 1948, quando um garoto de 20 anos, simples sideman da orquestra de Woody Herman, virou estrela, da noite para o dia, com um breve e diáfano solo no clássico Early Autumn, composto e arranjado por Ralph Burns.

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