Os festivais de jazz estão hoje em todos os cantos do mundo, principalmente quando o verão chega ao Hemisfério Norte. Neste mês e em agosto, cerca de 40 festivais importantes terão sido realizados nos EUA, Canadá e Europa. Todas essas entusiásticas celebrações do jazz são frutos de uma só árvore - o Festival de Newport, cujo 50º aniversário será comemorado, com uma programação invejável, de 11 a 15 de agosto, em três palcos do
resort de milionários de Rhode Island, onde nasceu e cresceu.
Tudo começou em 1953, quando Elaine e Louis Lorillard - leia-se P. Lorilard Tobacco Co., fabricante dos cigarros Kent - conheceram o pianista semi-profissional George Wein, dono do clube Storyville, em Boston. Os Lorillard eram então da ''bossa nova'' de Newport e não suportavam mais os verões bem comportados daquele recanto de ricaços que só se divertiam - pelo menos em público - velejando, jogando tênis ou assistindo a recitais de música clássica. O casal convenceu Wein a enfrentar o establishment e produzir um festival de jazz num dos points mais fechados da Costa Leste norte-americana.
''Da mesma forma que Benny Goodman rompeu as barricadas do Carnegie Hall em 1938, Newport foi outro passo na duradoura luta do jazz por legitimidade'', escreveu o crítico e historiador John McDonough.
George Wein acabou por se tornar milionário com a progressiva internacionalização do Newport Festival, em associação com a JVC, e a produção de dezenas de outros festivais, nos EUA, na Europa (Paris, Varsóvia, Haia) e na Ásia (Tóquio, Seul).
Em seu apartamento de Manhattan, decorado com telas de Renoir, Chagall e Miró, o empresário de 78 anos diz em entrevista à Down Beat: ''Não estou certo de que os Lorillard tenham tido o crédito merecido. Não pelo festival, mas pelo fato de terem feito com que os ricos se associassem ao jazz''.
Wein ainda toca (e bem) piano. E atuará também como músico, num dos palcos armados em Newport para a festa de 50 anos do pai de todos os grandes festivais de jazz.
Em 1954, umas 13 mil pessoas lá estavam reunidas para ouvir jazzmen tradicionalistas, como Bobby Hackett e Eddie Condon, mas também estrelas da grandeza de Gene Krupa, Teddy Wilson, Oscar Peterson, Ella Fitzgerald, Dizzy Gillespie e Lee Konitz. Louis Armstrong e Duke Ellington tinham compromissos anteriormente assumidos e não foram a Newport. Seriam as principais atrações de festivais posteriores, como o de 1956, quando a orquestra de Ellington reencontrou o grande público, com a gravação, ao vivo, de um Diminuendo and crescendo in blue de 14 minutos, com o célebre solo do sax tenor Paul Gonsalves.
O primeiro Newport Jazz Festival não rendeu discos. Mas, nos anos seguintes, as gravações de Live at Newport, de Armstrong, Ellington, Dave Brubeck, Miles Davis e John Coltrane, enriqueceram e difundiram o jazz. O documentário Jazz on a Summer day, de Bert Stern, é o melhor registro do clima daqueles anos dourados em Newport. O filme, reeditado em DVD, foi rodado durante o festival de 1958 e a câmera destaca momentos das performances de Armstrong e seus All-Stars, de Thelonious Monk, Gerry Mulligan, e das vocalistas Anita O'Day, Dinah Washington e Mahalia Jackson.
Na grande festa do cinqüentenário do Newport Festival vão tocar dois sobreviventes da primeira edição: Lee Konitz (78 anos) e Percy Heath (81) - que integrava o Modern Jazz Quartet. O sublime sax alto vai liderar um trio e o baixista faz parte do grupo The Heath Brothers, com seus irmãos Jimmy (sax tenor) e Al (bateria). No concerto de abertura, no dia 11, Dave Brubeck conduzirá, à frente de seu quarteto, orquestra e coral, sua cantata The gates of justice. Nos dias seguintes, estarão nos três palcos da cidade mais de 125 jazzmen da Primeira Liga norte-americana, em diversas formações.
Entre eles, Wynton e Branford Marsalis, Jon Faddis, McCoy Tyner, Roy Haynes, George Shearing, Jackie McLean, Phil Woods, James Moody, Ron Carter, Michael Brecker e Ravi Coltrane (os dois últimos num tributo a John Coltrane, que incendiou o festival de 1963 com uma de suas longas interpretações free de My favorite things).
Os jazzófilos abonados já podem encomendar - enquanto esperam os registros da celebração de agosto - a caixa de três CDs que a Columbia lançou, intitulada Happy birthday Newport! 50 swinging years. Custa em torno de US$ 40 e contém 27 momentos de festivais realizados entre 1956 e 1976.