Na primeira metade dos anos 60, paralelamente ao desenvolvimento da bossa nova - aquele sambinha surgido nos apartamentos e bares habitados e freqüentados pela classe média da Zona Sul do Rio -, floresceu o sambop. Os elementos básicos da bossa nova eram a voz, um banquinho e um violão. Mas também o ritmo de
swing sutil, bem diferente das batidas dos morros e gafieiras, conjugado com harmonias (intervalos) de sabor jazzístico. O sambop (ou samba-jazz), música de caráter instrumental, nasceu dos trios que tocavam nos bares de Copacabana, principalmente no Beco das Garrafas, endereço do Bottle's e do Little Club. Era lá que se encontravam pianistas criativos e hábeis, como Luiz Eça, Luiz Carlos Vinhas, Sérgio Mendes e Francisco Tenório Júnior, o ''Tenorinho''.
Eles eram apaixonados por jazz, mas tinham namoro firme com a bossa nova que, afinal de contas, incorporou elementos jazzísticos antes de ser exportada para os Estados Unidos, onde foi logo consumida, temática e ritmicamente, por muitos jazzmen de prestígio, como Stan Getz, Bud Shank, Herbie Mann e até o venerável Coleman Hawkins.
In illo tempore, os papos, acordes e solos dos pianistas do Beco começavam e terminavam com Horace Silver ou Hampton Hawes, Pete Jolly ou Russ Freeman. Os bateristas (Edison Machado, Robertinho Silva, Dom Um Romão, Chico Batera) sabiam de cor solos de Max Roach, Art Blakey, Roy Haynes, Philly Joe Jones, e respeitavam a finesse de Shelly Manne e Joe Morello. Raul de Souza, o ''Raulzinho'', tocava trombone com engenho e humor tão marcantes como os de Frank Rosolino. Os saxofonistas Paulo Moura, Victor Assis Brasil e J.T. Meirelles poderiam ter tido, nos States, sucesso igual ao obtido pelo trompetista Claudio Roditi e pela pianista Eliane Elias.
Pois bem. Quem quiser recordar ou conhecer momentos significativos do sambop, registrados entre 1962 e 1967, tem agora uma oportunidade única, com o lançamento da coletânea Jazzsamba/ Copacabana (Dubas Música, distribuição da Universal). Edison Viana, o produtor do CD, que contém 14 temas interpretados por conjuntos liderados por 12 dos músicos acima citados, além do compositor-arranjador Moacir Santos, anota que, quatro décadas depois, o ouvinte mais dedicado só encontraria algumas dessas faixas em sebos, mesmo assim com sorte.
Não se trata de uma excursão nostálgica ao passado, através da máquina do tempo da fonografia. Os 37m50s do CD remasterizado (média de 2m68s por faixa) contêm música deliciosa, de boa qualidade, ainda dentro do ''prazo de validade''. Embora prevaleça o sambop com batida bossa nova, há bons exemplos do estilo derivado do ''sambão'', como Se você disser que sim (Columbia, 1963), tema e arranjo de Moacir Santos interpretado pelo sexteto de Edison Machado, que incluía os trombones de Raul de Souza e Maciel, o sax de Paulo Moura, Tenório Jr. e Tião Neto (baixo).
A orquestra de 14 membros de Moacir Santos está muito bem representada em Coisa nº2, do LP Coisas (selo Forma, 1965). Raul de Souza pontifica em Olhou pra mim, do álbum À vontade mesmo (RCA, 1965), que foi, aliás, reeditado em CD, há poucos anos, na série Original Jazz Classics da BMG. A seu lado, o piano de Cesar Camargo Mariano e a bateria de Airto Moreira.
O piano saltitante de Sérgio Mendes (que quando ainda era o ''Serginho'' e morava em Niterói só queria saber de Horace Silver) destaca-se em duas faixas: Só danço samba, do clássico álbum Bossa Nova York (Elenco, 1967), com mestre Phil Woods no sax alto e Tom Jobim no violão; e Nôa... Nôa, em companhia do Bossa Rio (Raul de Souza, Edson Maciel, o saxofonista Hector Costita, o baixista Tião Neto e o baterista Edison Machado), do LP Você ainda não ouviu nada (Philips, 1964). O inesquecível Victor Assis Brasil está bem representado em Naquela base, de João Donato, ao lado de Tenório Jr., Chico Batera e Edson Lobo (baixo). A faixa foi retirada do excelente álbum Desenhos, gravado pela etiqueta Forma, em 1966.
O saxofonista J.T. Meirelles, discípulo de Sonny Rollins, brilha em Nordeste, de sua autoria, com o pessoal do Copa 5 de 1964 (Luiz Carlos Vinhas; Pedro Paulo, trompete; Manoel Gusmão, baixo; Dom Um Romão). A faixa é do álbum O som (Philips). O Tamba Trio de Luizinho Eça está presente na coletânea da Dubas com Batida diferente (do LP da Philips, de 1962). E o trio de Tenório Jr. (Sérgio Barrozo, baixo; Ronie Mesquita, bateria) apresenta uma pequena gema de 1m53s, Nebulosa, de autoria do pianista, do raro LP Embalo (RGE,1965).
Esse álbum está sendo reeditado também pela Dubas Música, juntamente com Jazzsamba. Foi o único disco gravado como líder por Tenorinho que, como se sabe, foi executado (por engano), em 1976, em Buenos Aires, por agentes da ditadura militar argentina. Mas o disco de Tenório Jr. é assunto para a próxima semana.