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Andrew Hill critica o jazz marqueteado

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Andrew Hill critica o jazz marqueteado


O pianista-compositor Andrew Hill, 66 anos, foi revelado na primeira metade da década de 60 pela escuderia Blue Note através dos LPs Black fire, Smoke stack e Point of departure (todos reeditados em CD).

No primeiro, liderava um trio com Roy Haynes (bateria) e Richard Davis (baixo). No segundo, já mais complexo, outro baixista, Eddie Kahn, foi acrescentado ao trio da sessão de estréia. Point of departure - um sexteto integrado pelos saxofonistas Eric Dolphy e Joe Henderson, além do trompetista Kenny Dorham - é um dos marcos da metamorfose do hard bop num tipo de jazz mais especulativo, mais ''difícil'', em termos de densidade rítmico-harmônica, cada vez mais liberto de previsíveis acordes de passagem.

A música densa, mágica e enigmática de Andrew Hill poderá ser apreciada ao vivo, no próximo dia 6, na segunda das quatro noites do 5º Chivas Jazz Festival, sob a grande tenda da Marina da Glória (no DirecTV Music Hall, em São Paulo, ele se apresenta no dia anterior). O pianista vem à frente de seu trio, com John Hebert (baixo) e o mais conhecido e festejado Nasheet Waits (bateria).

A seguir, uma rápida entrevista com Andrew Hill - tão cuidadoso com as palavras quanto com as notas e os acordes que garimpa ao piano.

- Desde os anos 60, você é considerado um pianista-compositor difícil de classificar, do mesmo modo que Thelonious Monk e Cecil Taylor. Como você se autoclassifica?

- Para me categorizar, basta observar a minha arte. Uma maneira de entender minha música é perceber que sou parte de uma tradição musical afro-americana de 200 anos. Isso é o mais importante.

- Você prefere tocar na moldura de uma orquestra, como no CD A beautiful day (Palmetto 2085), gravado ao vivo, no Birdland, em 2000, ou no formato do trio?

- Tiro prazer de qualquer tipo de conjunto. A música, em si mesma, é um prazer, e gosto do processo de estar tocando com outros músicos, de tudo que eles trazem para essa experiência. Não importa que esse processo ocorra no contexto de um trio ou de uma big band.

- Sua obra é uma work in progress, ou pode ser apreciada sem se levar em conta a ordem cronológica de sua documentação? O álbum Passing ships (Blue Note 90417) foi gravado em 1969, mas era desconhecido até o ano passado, quando foi lançado e muito elogiado pela crítica especializada...

- Meu trabalho é uma work in progress na medida em que estou ainda ativo, compondo e me apresentando. Assim, minha obra é, conseqüentemente, inacabada. O fato de Passing ships só ter sido conhecido no ano passado, embora gravado em 1969, decorre da circunstância de que continuo em atividade e, por causa disso, as pessoas me conhecem e tiveram curiosidade de conhecer também esse álbum.

- Gostaria que falasse um pouco dos sidemen que está trazendo ao Brasil...

- Nasheet Waits toca comigo há uns três anos. O que aprecio no seu trabalho é que a bateria funciona como uma extensão dele e ele, por sua vez, é uma extensão da tradição do jazz, de onde eu venho. O estilo de Nasheet casa perfeitamente com o meu. O baixista John Hebert também está comigo há três ou quatro anos. Ele sabe, como poucos, tocar o ritmo. A maioria dos baixistas de hoje dá ênfase à melodia, mas Hebert não se esqueceu da importância do ritmo no jazz.

- O que acha do estado do jazz nos dias que correm?

- Nos Estados Unidos, a música que vem sendo marqueteada e vendida como jazz não pode ser considerada como jazz verdadeiro. Esse jazz que as gravadoras e os críticos empurram goela abaixo do público vem de uma tradição musical européia, que pouco ou nada tem a ver com o verdadeiro jazz - a música que deu voz ao povo negro nos EUA. O jazz que se vende por aí é outra música, com o mesmo nome. É preciso entender que o jazz nasceu da necessidade de os negros se expressarem, de terem uma voz. E isso nunca foi engolido pelo sistema.


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[22/ABR/2004]


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