Thelonious Monk (1917-1982) foi um dos verdadeiros gênios do jazz. Embora geralmente qualificado, apenas, como um dos fundadores do
bebop (ao lado de Charlie Parker e Dizzy Gillespie), o pianista-compositor tinha um estilo único, inclassificável. Era tão excêntrico como sua música inconfundível e subversiva, fossem os temas e variações dissonantes e ''avançados'', como
Epistrophy, ou melodicamente acessíveis, como
Round about midnight. Lucien Malson chamou-o de ''contorcionista da música, gênio da arte percussiva''.
Depois das gravações fundamentais para os selos Blue Note (1947-50), Prestige e Riverside (1953-60), Monk foi finalmente reconhecido como gênio. A Columbia contratou-o, juntamente com o seu quarteto (Charlie Rouse no sax tenor), em 1960. A associação Monk-Columbia durou até 1968 e gerou uma dezena de LPs, entre os quais os excelentes Criss-cross (1962-63) e It's Monk's time (1964). Nesse período, aquela figura estranha, antes conhecida como o ''eremita do bebop'', chegou a ser capa da revista Time (28/2/64).
O último LP gravado por Monk para a Columbia foi Underground (1967-68). Quando lançado, mereceu atenção especial em face da originalidade de sua capa: uma foto produzida de Thelonious, vestido de maquis, metralhadora a tiracolo, tocando num velho piano de parede, num porão-esconderijo (na verdade, o estúdio de seu apartamento), em meio a um bricabraque de objetos, garrafas de vinho e ''troféus de batalhas'', incluindo granadas e um ''oficial nazista'' amarrado numa cadeira, ao fundo.
Esse álbum cult acaba de ser reeditado em CD (série Legacy da Columbia) não só remasterizado, mas totalmente restaurado. Ou seja, seu verdadeiro e significativo conteúdo foi devidamente resgatado.
O álbum já era importante por conter - depois de um longo silêncio do maior inventor de temas do jazz - quatro novas composições: a admirável e hoje clássica Ugly beauty, Green chimneys, Raise four e Boo boo's birthday.
A reedição em CD é bem diferente do LP original, cujos tapes foram extensivamente manipulados e cortados pelo produtor Teo Macero. Das sete faixas da ''bolacha'' de 1968 (as quatro citadas mais Thelonious, In walked Bud e Easy street), cinco foram bem reduzidas. Dos 13 minutos de Green chimneys restaram apenas oito; o tape de Ugly beauty tinha 10 minutos e 45 segundos, e não somente sete minutos.
Assim, a relevância dessa reedição autêntica e definitiva de Underground não se limita à melhoria da qualidade técnica do produto sonoro. Trata-se dos tapes originais das sessões, sem as ''cirurgias'' de Macero, necessárias para comprimir as faixas no LP-padrão (12 polegadas e 33 r.p.m.).
Fred Kaplan (Slate, edição de 11 de setembro) anota que a comparação das duas versões não são assim tão diferentes, já que as amputações feitas por Teo Macero tiveram como principais alvos os solos de baixo e de bateria (Larry Gales e Ben Riley, respectivamente).
No entanto, comenta Kaplan: ''O solo de contrabaixo é, em geral, uma arte vergonhosamente negligenciada, e os solos de Gales, e também os de Riley, são extraordinariamente bons. Sua omissão nas versões anteriores era, assim, uma grande perda''.
Além disso, os solos de bateria e de baixo nos quartetos de Monk não eram, apenas, espaços para a exibição técnica de músicos da consistência de Gales e Riley. Eram também momentos de ''reabastecimento'', em matéria de idéias, do sempre surpreendente pianista, que - como se sabe - costumava levantar-se da banqueta e dedicar-se a uma singular dança em torno do piano.
Com exceção da versão da então já muito conhecida In walked Bud, com vocalização de Jon Hendricks abaixo do seu nível habitual de criatividade, Underground contém momentos preciosos da discografia monkiana. Além do mais, esta reedição em CD traz dois takes suplementares, até então inéditos, de Ugly beauty e Boo Boo's birthday.