Parabéns Jamelão, pelos seus 90 anos, hoje, no Scala. 17 vezes mais bela, o samba coberto de glória, Mangueira, Estação Primeira, tem Zica, Neuma, Nelson, Cachaça e Cartola. O que Jamelão canta não é normal, é pinto no lixo, tem que engolir, é festa na quadra e na Visconde de Niterói. Canta samba canção em Nova York, Lupicínio, Tom, Chico e o Nordeste. Canta a Sapucaí. O cenário é uma beleza! Parabéns Mangueira, 75.
Quem nasce no morro nasce em Mangueira. Quem desfila, desfila na Mangueira. São as preposições afetivas. Natural de Cachoeiro de Itapemirim. Ele é de Mato Grosso. Quem diz do Mato Grosso ofende o ouvido nativo. Talvez a exceção nacional seja Recife. Os naturais dizem ''no Ricife''. Mas o Rio, com a mídia, ensinou o Brasil a cantar: em Recife. As duas formas são legais.
Por que não existe ônibus-leito Rio-Belém? Porque são dois dias. Com tanto afeto que se encerra na viagem, o leito pode virar cama. Paixões seriam propiciadas. Fora expressões típicas, égua, o sotaque de Belém lembra o do Rio. Sérgio Sampaio homenageou Torquato Neto, lembrando o poeta no Hospício de Engenho de Dentro. Diz a letra da canção na bela voz de Luiz Melodia: ''Fui internado ontem na cabine 103, só comigo tinham dez'' E mais à frente: ''A minha cama já virou leito, disseram que eu perdi a razão''. Como entender que um colchão seja a nova estrela do Domingão do Faustão, e curioso, como este colchão, de nome Castor, pode ter um logotipo tão semelhante ao da Coca-Cola impunemente? Bebo Castor e acordo Coca Cola. Ou amo na Coca Cola e arroto Castor.
Fora o dia de ontem, ser mãe é padecer no paraíso. Padece no lençol quando o bebê nasce, quando cresce - haja médico, quando vira adolescente, ai! Padece quando desaparece, toda nora é um horror. Genro, pior ainda. E padece se tem a desventura de ver um filho morrer. E se for totalmente feliz, padece porque a felicidade é como a pluma.
Um motorista de táxi, cândido ou otimista, diz: ''Rodei muito, fui a Jacarepaguá, Ilha do governador, e só vi carro. Mas o Rio está violento. Leio no jornal. Vejo na TV.'' O motorista completa: ''Tenho um cunhado em Vitória, é policia, graduado. Mas ele e minha irmã morrem de medo de vir ao Rio.''
A novidade são os atentados. As vias expressas são fechadas a tiros, mas logo a polícia as reabre. Já tivemos engarrafamentos mais demorados, sem bandidos, só caos. Mas as bombas malvinas triscam hotéis. As balas marcam palácios e pontos turísticos. Quantos inocentes morreram nessa onda de atentados? Umas poucas dezenas se tanto. Estatisticamente, há 30 anos o Rio registra, por mês, número de homicídios semelhante ao do Japão e da Inglaterra, somados, ao longo de um ano. O Rio do terror já é caso para Donald Rumsfeld? E Mariana, a menina morta de manhã no Andaraí? Quem se lembra? E o pai que foi, à tarde, levar uma criança à escola Dínamis e foi morto na porta do colégio em Botafogo? E o delegado que veio de Brasília, anos 70, para uma festa no Sheraton e, no estacionamento, à noite, foi morto por um policial ladrão que ''cumpria pena'' no Ponto Zero? E a capa da revista Veja, com cadáveres empilhados, indagando, há mais de 20 anos, se o Rio vivia uma guerra civil?
Nós, jornalistas, costumamos dizer que somos especialistas em generalidades, que não sabemos nada sobre uma infinidade de assuntos, assistimos a tragédias terríveis e, minutos depois, a preocupação é exclusivamente com o horário do fechamento da edição. A atividade de relatar fatos enquanto se luta contra o relógio propicia sofrimento e prazer, tendo algo de sublime na ação de cada repórter. Nesse trabalho diário de apurar e depurar notícias, ou de escrever com base também na própria experiência, a tranqüilidade profissional, quando tanta gente está em pânico com a criminalidade ou atrás da sobrevivência, e quando é hora de fechar o jornal e está tudo meio atrasado, enfim, nada dessa capacidade de resolver com simplicidade as tramas do cotidiano, entre perigos diversos, pode ser mais importante do que trazer de volta o otimismo em 2003.