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Encontro esta nota - que, mais tarde, diriam notha, ou nohta -, que fiz prum CD de meu velho amigo Carlinhos Lyra. Acho que nunca publiquei. Lá vai.
O último disco do Carlos Lyra tem o título Carioca de Algema, tirado de uma das 14 letras que fiz junto com ele pro musical Memórias de um Sargento de Milícias. Como afirma o famoso dístico na porta da ABL, ''esta é a glória que fica, eleva, honra e consola''. Estou, claro, me referindo a ser parceiro dele, Carlinhos. Pois, com Vinícius de Moraes, ele compôs - e bota composição nisso! - uma das maiores parcerias da música popular brasileira, só comparável à de Tom com, outra vez, Vinícius. E, sem possibilidade de discussão, Carlinhos é a pedra fundamental, o alicerce, a estrutura, a fachada, a cumeeira e os fogos de artifício da inauguração da Bossa Nova - junto com Menescal, Tom, Vinícius e João Gilberto.
Somados a eles, não se pode esquecer, é claro, Nara (*) e seus joelhos, Ronaldo Bôscoli (o Cometa* ), Chico Feitosa (Chico Fim-de-Noite), Silvinha Telles, Baden Powell e Newton Mendonça (que morreu logo, mas deixou um dos ícones musicais da BN - o Desafinado).
Como diria o falecido Hibraim Sued - que triunvirato!
E é só. O resto está neste claro, preciso e nostálgico CDbook. Apenas como pequeno adendo histórico-mitológico, pesquiso e lembro que foi com a música de sua lira que Anfion criou Tebas. Também com a lira, Arion encantava os golfinhos. Quando tentaram afogá-lo, os golfinhos carregaram o bardo e o colocaram em Tenaro, são e salvo. Hércules aprendeu a tocar lira com Linus. Mas, irritado por levar pau no fim do curso, quebrou o instrumento na cabeça do mestre que ali mesmo esticou as canelas. Orfeu, ninguém ignora, foi o máximo no instrumento - enfeitiçou até os deuses infernais com o som de sua lira. As montanhas caminhavam até ele e os rios paravam para ouvi-lo. Catzo!
Moral: ninguém é Lyra impunemente.
(*) Em cuja casa, segundo Ruy Castro, o Heródoto de Ipanema, começou a Bossa Nova.
Carlinhos e eu temos certeza de que a Bossa Nova nasceu foi na casa do pianista Bené Nunes, na Gávea, onde o mundo da música carioca entrava e saía sem pedir licença. A casa de Bené ficava aberta madrugada a dentro, até o último amigo.
(**) Porque a maledicência dizia estar sempre agarrado ao rabo de uma estrela.