
Encontrei o procurador de Tocantins. Abatido pelo desenrolar dos acontecimentos, ele me disse: ''Você não sabe, Millôr, o horror. Nunca pensei houvesse. Fosse tanto. Lembrei logo de Falstaff, o gordo gigantesco, o famoso personagem barbalho de Shakespeare. Você também lembra, claro. Falstaff, na cena V, do ato III, das
Comadres de Windsor, contando, horrorizado, a
injustiça com que o trataram quando foi apanhado:
''E, subitamente, eu estava envolvido por camisas e ceroulas purulentas daquela porcaria domiciliar, a podridão doméstica que nunca ninguém vê. Afoguei-me, engasguei-me ao ser jogado ao cesto bolorento, bofento, excremental, estrumoso. Que cesto imundo! Toalhas lambuzadas, guardanapos gordurosos, panos de chão, lençóis catarrentos, supositórios malcheirosos, lenços remelentos, meias chulentas, calções gosmentos, toucas com caspas, peitilhos babados, babados besuntados, fronhas tifosas, lençóis com manchas suspeitas, toalhas ensangüentadas, trapos asquerosos, repugnantes, fraldas borradas, enfim, uma fedentina, uma catinga, uma morrinha, uma merdice como jamais houve outra igual, ofendendo nariz humano ou mesmo desumano.''