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Mãe só tem uma


Há uma certa agressividade ao invocar a figura da mãe em situações de revolta. Revela um destempero psicológico, sugere uma dose de desequilíbrio sociológico, quem sabe um despautério patológico. É só o sujeito sentir-se abortado no trajeto de rua, fechado por uma manobra infame de um taxista, que lá vai a genitora pagar o ônus de uma carteira de habilitação mal emitida.

E nas freadas bruscas, provocadas pelo ziguezague insano de motoboys, não existe ícone maternal que resista ao momento de fúria. ''Não tem mãe, não, cabeção!?'' Sobra sempre para a coitada. Nas filas de banco, ou naquelas serpentes humanas que insistem em se esgueirar nos postos do INSS - realimentadas pela burocracia renitente e supernutridas pelos sistemas informatizados que desmancham no ar - a mãe sempre é lembrada quando emerge um fura-fila.

Ela não sabe o filho que tem, mas os demais insistem em afirmar que a mulher que pariu aquele Mateus que o embale em algum meretrício de periferia. Deve ser por ali o endereço a que todos se referem. Nem tente recorrer a passagens bíblicas - as pedras verbais são arremessadas antes que um Cristo se atreva a pedir perdão para a mãe do malandro, a essa altura já associada a um passado nebuloso e a um presente de dilúvio em lama. Às vezes, ele escapa do linchamento; ela, não.

Em São Paulo, essa fixação pela mãe dos outros atravessou fronteiras, ecoando pelas arquibancadas, gerais e numeradas de estádios de futebol. Uma ação espontânea, melhor dizendo, combustão espontânea. Surgiu do nada, soprada pelo estranho sotaque de um milongueiro. Mais que um rostinho bonito desfilando nos gramados do País, Carlitos Tevez veio fomentar uma paixão nacional, o espancamento oral de argentinos.

O esporte dileto daqueles brasileiros que compreendem a palavra hermanos da mesma forma que Caim e Abel. Impressiona como ele é assolado apenas pelo apupo de palmeirenses, vaias de tricolores, descaso de santistas - que se dedicam mais a aplaudir Robinho. Nada mais. A madresita, todavia, mesmo recolhida a um conjugado simples de Buenos Aires, é transformada em uma Evita sem Perón. A verdadeira culpada pela miscigenação portenha do Corinthians Paulista, a dançarina de cabaré responsável pela migração de dribles que já tínhamos.

É, mãe só tem uma! Exatamente a que herda essa conta, forrada em débitos, de rebentos que furam fila, atropelam as leis de trânsito, mexem com a ordem natural da rivalidades. Que me perdoem os evangélicos, que me entendam maometanos e budistas. Mas, pelo drama, essas mães subjugadas pelo verbo deveriam ser canonizadas, tornadas santas por dar a luz um Judas. Como sofrem nessa via-crúcis contemporânea.

Imagine, por exemplo, como será padecer nove meses, esmerar-se duas décadas de criação e perceber-se a criadora de um juiz de futebol. Pobre mulher, brindada todo o fim de semana por um coro de barítonos toscos, pelo grito uníssono da turba ignara. Quanta crueldade! Que santifiquem a mãe do árbitro. Acho que a única a escapar com ferimentos leves, ou com razoável esperança de sobreviver ao massacre, é a miserável que pôs um pichador no mundo.

Essa raça social, sempre com a ponta dos dedos manchada por atentados à cidadania, que costuma provocar uma revolta direta, sem escudos maternais. Esse indivíduo que provoca mais ódio direto e menos digressões sobre de onde veio. ''Quem é o desgraçado que acha esses garranchos uma arte. Ôô, sujeitinho porco?!'' Muitas vezes, quando um rabisco toma a forma de grafite, cabe até elogio. Ou, quando a idéia é boa, vem o riso e sai a carranca que nos leva ao xingamento.

Lembro de uma pichação antiga, coisa de 20 anos, em uma parede sem glamour, um muro tímido escondido em uma viela na W3 Sul, no caminho do Cine Cultura Inglesa. Uma reles passagem que não revelava o desejo de aparecer, apenas o de criar em uma tela ao ar livre. Na tinta encardida, o spray confessava: ''Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém chama Nikolaus von Behr''. Abençoada a mãe do Nicolas, pela genialidade do filho. Louvada seja a minha, e que Deus a brinde com uma audição turva quando as ruas gritarem muito.


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[13/MAR/2005]


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