Escritor S.A.
De todos os sinais do fim dos tempos que vi nos últimos dias (modo de dizer, claro: não vamos nos livrar tão facilmente do tempo, nem ele de nós), o mais alarmante não é financeiro, político ou bélico. Um poeta já previu que o mundo não acabaria com uma explosão, mas com um gemido, e foi em meio a um concerto de gemidos imaginários que li a notícia de que certos escritores americanos,
best-sellers em todo o planeta, começaram há alguns anos a terceirizar a tarefa - lenta, solitária, trabalhosa, um saco - de escrever seus livros.
Atenção, guardem os nomes: Robert Ludlum e Tom Clancy são os mais famosos da turminha de preguiçosos. Se não escrevem, o que fazem tais escritores? Bom, eles concebem os livros, estão pensando o quê? Extraem de sua imaginação prodigiosa um personagem irresistível, daqueles que fariam Miguel de Cervantes desistir, humilhado, de inventar o romance moderno, e o lançam num fiapo de enredo de três linhas. Algo como: ''Ex-agente da CIA viciado em heroína desembarca no Marrocos a fim de vingar o estupro de sua filha de sete anos e termina por desbaratar uma quadrilha internacional de terroristas albinos''. O resto - personagens secundários, diálogos, descrições, desenvolvimento, clímax, conclusão, essas bobagens - é trabalho braçal, tarefa para escritores de verdade da ''equipe'' da dita celebridade.
Essa linha de montagem permite fenômenos espantosos. Ludlum, que morreu há um ano e meio, tem alguns livros inéditos prestes a ganhar as prateleiras. Edições póstumas? Isso seria dizer pouco. Os livros são inteiramente póstumos, foram escritos depois que Ludlum morreu. Gayle Linds, uma das operárias da palavra do escritório dele, explica que só teve de ''preencher as lacunas'' depois que ''Bob pensou num personagem fascinante''. Como Bob era seguramente um titã da literatura, basta que tenha pensado num ''personagem fascinante'' para que seu nome apareça em letras garrafais na capa de um livro que ele não poderia ter escrito porque estava, digamos, morto demais na ocasião. Estremeço ao imaginar quantos ''personagens fascinantes'' Bob terá concebido antes de seu último suspiro, e em quantos anos de livros póstumos a indústria editorial espichará sua fama. Bem administrado, ''Robert Ludlum'' pode até ser imortal. Não como Paulo Coelho. Literalmente.
Alguém vai achar que estou exagerando ao ver um sinal do fim do mundo - o mundo como o conhecemos - nessa aplicação do modelo de franquias ao universo literário. Talvez esteja. É até possível que os consumidores de Ludlum, Clancy e congêneres estejam pouco se lixando para as implicações éticas dessa otimização de produtividade baseada num esperto gerenciamento de marcas. Ou para o xeque-mate que isso aplica em velhas idéias de autoria, estilo, honestidade intelectual. Talvez, para o tal leitor, a essência da literatura esteja mesmo num ''personagem fascinante'', e não escondida em algum lugar inacessível na mata fechada do texto. Talvez até, puxa, Gayle Linds escreva melhor que Ludlum.
Fiz todas essas ressalvas, mas continuei chocado. Conservo um respeito antiquado pela literatura. Lembro-me de um livro como Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, com suas múltiplas sementes de romance, sua sucessão de primeiros capítulos que não vão adiante, e imagino um editor italiano ganancioso convencendo os descendentes do autor a entregar cada um desses esboços - cheios de personagens mais fascinantes que os de Ludlum, eu garanto - a um escritor-operário. Já pensaram, anos e anos de ''Italo Calvino'' pela frente? Excelente para os negócios, sem dúvida. Em compensação, o mundo como o conhecemos teria dado seu último gemido.