Os primeiros sinais de uma neurose nova demais para estar nos livros de psicologia são claros. Ultimamente, tenho me conectado à internet, coisa que por dever profissional faço todos os dias, com a cautela de um soldado em campo minado. Um olho na tela, o outro à procura do inimigo. Sim, porque é claro que ele, o inimigo, está ali em algum lugar. Quem sabe escondido atrás desse
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link. Na maior parte das vezes - isso é certo - inteiramente invisível, traiçoeiro, tentando penetrar sorrateiramente pelo TCP port 3.126 ou 8.124. Desde que blindei o micro com um equipamento de segurança que bloqueia conexões não-solicitadas chamado Firewall, há dias em que é impossível trabalhar por 30 segundos sem que a tela congele e apareça um aviso de ataque. Dá medo, principalmente em retrospecto: caramba, quantas iniqüidades não aconteciam por aqui antes da blindagem, sem que eu, com a patética inocência de um índio respirando vírus e bacilos europeus, desconfiasse de nada?
Não entendi muito bem o que os inimigos podem fazer contra mim ou meu disco rígido, duas entidades cada vez mais inseparáveis nos dias que correm, mas essa ignorância só aumenta a sensação de perigo. O pior é que, como sabemos, essa tal de internet ainda está na primeira infância. Imaginem quando crescer... Será que o problema é só meu ou mais gente já começa a encarar seu computador como se ele fosse um filhote de tigre criado num quarto-e-sala? Aquela coisa: por enquanto, um bicho fofo, pouco mais que um gato parrudinho, embora o estofamento do sofá esteja em frangalhos; em pouco tempo, porém...
Tento evitar sentimentos paranóicos, mesmo quando eles são a pura expressão da verdade, mas os sinais de inviabilidade são crescentes. O lixo dos e-mails comerciais, por exemplo, se avoluma em progressão geométrica. A maioria - é curioso - quer me arregimentar para que eu também passe a enviar e-mails comerciais. O circuito da chateação se auto-alimenta. Enquanto isso, sem que a gente se dê conta, o tigre vai crescendo. Não deve estar distante o dia em que todas as vias virtuais se entupirão num megaengarrafamento, tornando a internet uma espécie de São Paulo.
Ainda nem mencionei as vilanias deliberadas a que nossa caixa postal está exposta, como o e-mail que chegou outro dia de um site americano dedicado a imagens de... espancamento de mendigos! De vez em quando recebo mensagens estapafúrdias de um certo David Still, que nunca vi mais gordo. Fui investigar e descobri que David Still é uma abstração, um endereço de fachada num site holandês à disposição de qualquer pessoa que deseje enviar gozações, cantadas, insultos, ameaças de morte, qualquer coisa - e permanecer anônima. Detalhe: o infeliz destinatário que, desavisado, cai na armadilha e responde, tem sua réplica e seu endereço publicados no site para todo mundo ver. Bonito, não? E o tigre vai crescendo.
Não quero parecer reacionário. Como a geladeira, o telefone e a televisão, que não faziam a menor falta a nossos bisavós, o micro e a internet se integraram tão indissoluvelmente à minha vida que é difícil conceber o mundo sem eles. Só não consigo driblar a impressão de que, toda vez que meu provedor reconhece a senha e me abre as portas, penetro num cenário de faroeste, uma terra de ninguém. Mas é claro que existem compensações. Há poucos dias visitei, por exemplo, o site Rosinha Não!. As pesquisas eleitorais parecem indicar que o movimento nasceu tarde demais, mas mesmo assim vale a pena conhecê-lo. O endereço é rosinhanao.kit.net. Se a campanha não tiver impacto nas urnas, saberemos que o tigre ainda não cresceu o suficiente.