Com esta coluna completo um ano de colaboração à
Domingo, do
Jornal do Brasil. Ao longo desse ano, recebi inúmeros comentários de leitores; alguns por escrito, outros pessoalmente, de amigos, pacientes e desconhecidos que me reconheciam pela foto estampada na coluna. Para festejar a data, escolhi um tema leve e agradável - o lazer. Ele é importante em qualquer idade, embora o tempo para desfrutá-lo aumente após a aposentadoria, quando, ainda que em minoria, uma parcela de idosos se vê desobrigada do trabalho remunerado. Essa parcela privilegiada nem sempre se encontra apta para usufruir o acesso ao tempo livre. Ao longo da vida, a organização social condicionou-a a mobilizar forças vitais principalmente para o trabalho e a família, sem preocupar-se em prepará-la para usufruir saudavelmente o tempo adicional de que passa a dispor.
A aposentadoria freqüentemente provoca crises. A ''desocupação'' pode, por exemplo, ser compensada pela comida, principalmente nas mulheres e, pela bebida, nos homens. Estes podem tornar-se hipocondríacos ou tristes, sem conseguir explicar por quê. Muitas mulheres se tornam babás dos netos e se entregam totalmente às solicitações dos filhos para assumir novas tarefas domésticas. Isso as leva a se descuidarem. Inúmeros homens se entregam ao sedentarismo, lendo jornal ou permanecendo o dia todo em frente à TV ou ao computador. O quadro vem mudando, com transformações significativas nas formas pelas quais a pessoa idosa começa a escolher atividades que, de fato, qualificam-se como lazer.
O lazer deve ser entendido e aproveitado pelo(a) idoso(a) de três modos: como descanso, divertimento e recreação, e desenvolvimento pessoal. Como descanso, o lazer propicia oportunidade de reparação de desgastes físicos e mentais, provocados pelas tensões das obrigações cotidianas. O divertimento e a recreação têm como função anular o tédio e a monotonia. Tenho observado entre meus pacientes, na grande maioria as mulheres, a preocupação de sair com mais freqüência, de se associar a clubes onde encontram ambiente propício para trocar idéias, jogar cartas, fazer cursos, além de praticar atividades físicas supervisionadas, entre as quais incluo, como das mais importantes, natação e hidroginástica. Dependendo do gosto e do desenvolvimento cultural, visitam exposições, museus, viajam, vão a cinemas, concertos, shows musicais, conferências e costumam assistir a praticamente todas as peças de teatro em cartaz.
Embora o divertimento e a recreação também contribuam para o desenvolvimento pessoal, quando nos referimos a ele pensamos em formas de participação social mais livres, de engajamento em ações que reflitam vivência da cidadania, de prática de atividades artísticas e intelectuais variadas.
As universidades abertas à terceira idade, ou escolas para essa faixa etária, constituem uma nova opção de inclusão do idoso na sociedade. A freqüência a essas instituições não tem por objetivo a obtenção de diplomas e sim a possibilidade de o idoso integrar-se aos novos tempos, de atualizar-se criticamente quanto à situação socioeconômica e cultural de seu país e do mundo, de encontrar vários tipos de pessoas, de fazer novas amizades.
Como aludi no início, a maioria dos idosos, mesmo os aposentados, não pode dispor do tempo extra como bem entenda. Necessita dedicar-se a uma segunda ou terceira atividade, como trabalho autônomo, ou lides domésticas e familiares. O baixo poder aquisitivo é limitador de práticas de lazer, tanto quanto problemas de saúde, dificuldades de locomoção e falta de segurança, principalmente nos centros urbanos. Lamento sentir que, até no trato de tema leve e que sugere prazer, é com um travo de melancolia e impotência que concluo a coluna, por saber que vários idosos não podem desfrutar o direito ao lazer.
Por motivos de ordem pessoal e profissional, vou deixar de publicar a coluna por período ainda não determinado. A todos que me honraram com sua leitura, um feliz fim de ano, pleno de saúde e lazer.