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O valor de um ídolo


A galeria de ídolos do São Paulo Futebol Clube é das mais invejáveis do país do futebol. Nela, jogadores do quilate de Friedenreich, Leônidas, De Sordi, Canhoteiro, Piolin, Friaça, Zizinho, Forlan, Sastre, Bellini, Mauro, Gérson, Roberto Dias, Pedro Rocha, Marinho Chagas, Dario Pereyra, Oscar, Cerezo, Falcão, Serginho, Raí, Leonardo e Cafu perfilam-se a heróis de outras modalidades - como Adhemar Ferreira da Silva e Éder Jofre - e àquele que, enquanto a saúde permitiu, foi o maior treinador do Brasil: Telê Santana. Não é fácil abrir espaço em semelhante constelação, mas eu já não tenho receio de escalar o extraordinário Rogério Ceni no panteão das legendas são-paulinas.

Time que tem Rogério Ceni não merece perder a Copa Libertadores - tal foi o bordão que repeti inúmeras vezes nas últimas semanas. Graças à liderança, ao caráter, ao equilíbrio emocional e ao enorme talento de seu goleiro artilheiro, o São Paulo tornou-se o indiscutível campeão das Américas. Poucas vezes na história um clube chegou ao título da Libertadores com tanta justiça e tamanha folga. Bater o River Plate duas vezes pelas semifinais e escrever a última página da vitoriosa campanha com uma goleada de 4 a 0 na finalíssima são façanhas que poucos times podem almejar. Graças a elas, o Tricolor do Morumbi é agora o mais bem-sucedido clube do país em conquistas internacionais.

Renovando a torcida

Poucas torcidas cresceram tanto quanto a do São Paulo nas últimas décadas. De uma força intermediária nas pesquisas de popularidade no início dos anos 70 - atrás, por exemplo, dos quatro grandes cariocas - o clube figura hoje entre os de maior número de aficionados. A explicação recorrente para semelhante evolução passa pela conquista de títulos. De fato, três conquistas nacionais, três Libertadores da América e dois mundiais interclubes, obtidos desde 1977, configuram um cartel e tanto. Mas por que será então que um clube como o Grêmio, que colecionou títulos nos anos 80 e 90, não foi capaz de acompanhar o crescimento do São Paulo? Por que será que o São Paulo hoje tem torcedores em todo o país, enquanto o Grêmio permanece como uma força regional? Acertou quem respondeu que o tricampeão da Libertadores soube produzir e manter mais ídolos. Ídolos como Rogério Ceni.

Fora Carlos Alberto Parreira, que não costuma relacionar o goleiro em suas convocações para a Seleção Brasileira, todo mundo parece gostar de Rogério. Mesmo morando no Rio, meus afilhados adoram o capitão do São Paulo. Pedem que eu compre as camisas do craque, buscam autógrafos, exigem que eu os leve ao Morumbi para ver seu herói em ação. Com Kaká - que não por acaso surgiu no próprio São Paulo - a história era parecida. De uma geração de bad boys, venerada na década passada, cujos grandes ícones foram Romário, Edmundo, Marcelinho e Renato Gaúcho, a garotada passou a apreciar ídolos menos encrenqueiros, como Kaká, Robinho, Ronaldinho e Rogério. Todos eles com muita personalidade, só que mais disciplinados. Isso é muito bom para o futebol e para o Brasil.

O São Paulo soube aproveitar o carisma de Rogério para fazer crescer sua torcida. Outros times, de olho apenas no curto prazo, vendem seus projetos de ídolos quando eles são apenas isto: projetos. Quantos ídolos quase prontos o Santos perdeu nos últimos tempos? Muitos. Quantos garotos o Fluminense negociou antes sequer de uma boa temporada pelo clube? Muitos. Há quantos anos o Flamengo não faz valer o lema ''craque se faz em casa''? Muitos. Por isso, as torcidas de Santos e Fluminense perderam tanta força. E mesmo o Flamengo, que até os anos 90 soube conquistar títulos e lançar ídolos, poderá vir a padecer do mesmo mal. Ídolos como Rogério Ceni são o melhor investimento na marca e no futuro de um clube de futebol. Quem não perceber isso, continuará a perder títulos e relevância.

O menos desesperado

No clássico dos desesperados, venceu o Flamengo, graças a um lindo gol do estreante Souza. Não sei se Souza será capaz de resolver os imensos problemas rubro-negros, mas que ajudará a atenuá-los, disso eu não duvido. A nota curiosa da partida ficou por conta de Júnior Baiano, que quase marca outro golaço contra as próprias redes. Pelo visto, como o zagueiro comentou após o belíssimo gol que marcou para o São Paulo, essas são ''jogadas normais''. Bem, que para o Júnior Baiano elas são mesmo normais, agora ninguém pode mais negar. Já o Vasco, treinado e escalado por Romário, não rendeu bem. Até porque, cá entre nós, desde quando treinamento foi o forte do Baixinho?


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[18/JUL/2005]


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