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Submetidos fossem ao soro da verdade, corintianos e são paulinos declarariam, semanas atrás, que não esperavam nada menos da atual temporada do que o título de campeão brasileiro. Ainda que com um pouco mais de relutância, se expostos à mesma droga, os torcedores de Vasco e Botafogo confessariam que seu grande sonho era mesmo ver pelas costas o atual campeonato, desde que com a permanência na primeira divisão assegurada para 2006. Uma rápida avaliação do retrospecto dos clubes nas semanas que antecederam a estréia do Brasileirão levaria qualquer analista - freudiano, lacaniano ou esportivo - a interpretar os sonhos das quatro torcidas em dois patamares bem distintos. Enquanto os cariocas sonhavam com a metade da tabela ou, em estados de eufórica alteração de consciência, com uma vaga na Sul-Americana, os paulistas nem nos mais profundos processos depressivos imaginavam algo pior do que uma vaguinha na Libertadores.

Bastaram três rodadas para que os analistas - de divã ou prancheta - se deparassem com uma dissonância de prognósticos. O clássico domingueiro que valeu as primeiras posições na tabela foi o carioca, enquanto o paulista valeu apenas as posições intermediárias e, principalmente, o título de propriedade da maior crise deste início de temporada. Isso significaria dizer que a lógica se inverteu e o Rio de Janeiro recuperou a condição, perdida há tantos anos, de dono do melhor futebol do Brasil? Claro que não. Porque, se é verdade que a mentira tem pernas curtas, mais curtas ainda são as pernas da campanha de um time limitado. Os elencos de Vasco e Botafogo são irregulares - e por isso será muito difícil que, no apagar das luzes, os clubes continuem aparecendo bem na fotografia. O raciocínio oposto, entretanto, não é exatamente válido. Ou seja, São Paulo e especialmente o Corinthians, mesmo com times melhores, também poderão terminar longe das primeiras posições.

Capitalismo x comunismo

O atual Corinthians é um time tipicamente capitalista. Não falo isso por causa do empresário que negociou o controle do futebol do Parque São Jorge, mas porque o talento encontra-se distribuído de maneira desigual entre os jogadores e os setores do gramado. Enquanto sobra talento no meio-campo, por exemplo, falta no comando do ataque e debaixo das traves. Para piorar as coisas, os jogadores mais talentosos são justamente os menos competitivos - o que leva qualquer sistema ao colapso. Já o São Paulo tem certo jeitão socialista: há maior equilíbrio entre os jogadores e os setores, ainda que, no conjunto, o sistema esteja longe de ser brilhante. Noves fora as ideologias, na partida de ontem o futebol de conjunto do São Paulo pôde mais do que os virtuoses desentrosados do Timão. Com 20 minutos do primeiro tempo, graças a sucessivas falhas dos corintianos, o São Paulo já vencia por 3 x 0. Daí em diante, bastou aos tricolores administrar a vantagem e arrematar a humilhante goleada: 5 x 1.

Bota na ponta

Se no clássico paulista, com um pouquinho de imaginação, foi possível fazer uma comparação com sistemas políticos, no clássico carioca o que chamou a atenção foi a baixa qualidade do jogo. Em São Januário, a questão não era como repartir os talentos, mas exatamente a falta deles. Num jogo sem graça, o Botafogo bateu o Vasco pelo placar mínimo. Mínimo em todos os sentidos: emoção, qualidade, criatividade, entusiasmo... Mas se os cariocas não viram grande futebol, ao menos poderão raciocinar que pior do que ter times sem grandes nomes é ser afundado justamente pelos grandes nomes. Foi isso que aconteceu com o Corinthians, que ao longo das últimas semanas viu suas principais estrelas - Roger, Carlos Alberto, Tevez e Passarella - atrapalhando muito mais do que resolvendo. Vai faltar divã no Parque São Jorge.

Na semana passada eu escrevi aqui que a torcida do Botafogo não deveria se iludir com os bons resultados deste início de campeonato, já que só uma zebra sem tamanho levaria os alvinegros ao título brasileiro. Mas que fique bem claro: se iludir é uma coisa, comemorar é outra. A torcida do Bota pode e deve comemorar a boa fase. E aí vale tudo: gozação nos amigos, e-mails triunfais, chopada no final de domingo e almoço festivo na segunda-feira. Até porque, uma vitória sobre o Vasco em São Januário sempre é uma façanha - ainda mais se considerarmos que as duas equipes se assemelham na falta de talento dos elencos. Só quem não pode entrar nesse clima são os comandados de Paulo César Gusmão. Subir no salto é uma atitude que atrapalha qualquer campanha, mesmo na reta final. Subir no salto com 39 longas rodadas pela frente seria suicídio.


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[09/MAI/2005]


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