Brasil e Bolívia jamais foi um embate estressante para a nossa torcida. Quando jogam os dois países, é bem provável que os torcedores reunidos na casa de um amigo, para acompanhar o prélio pela televisão, estejam mais preocupados com a temperatura da cerveja e o ponto do churrasquinho do que com as investidas do ataque boliviano. A Bolívia, para mim, é o tipo de seleção sobre a qual até o Nilton Batata (lembram dele?) pinta o sete. Na verdade, apenas um jogo contra os rivais deixou-nos verdadeiramente desgostosos, nos 74 anos de história do confronto. Trata-se daquela derrota por 2 x 0, na altitude de La Paz, em 25 de julho de 1993, quando buscávamos a classificação para a Copa do Mundo dos Estados Unidos. O tropeço incomodou bastante: pela péssima atuação da Seleção, pelas falhas do habitualmente seguro Taffarel e, sobretudo, por ter sido o primeiro na trajetória da Seleção em Eliminatórias.
Depois daquela derrota, tomamos o gostinho pela coisa e voltamos a perder jogos classificatórios para Copas do Mundo - inclusive para os próprios bolivianos, e em plena era Scolari. Mas, como dizia aquela antiga campanha de sutiã, a primeira a gente nunca esquece. De forma que Etcheverry e Peña são nomes que, de certa forma, figuram no panteão dos carrascos do time amarelinho. Só que, como toda moeda tem dois lados, é importante lembrar do momento em que passamos a confiar no triunfo dos comandados de Parreira na Copa de 1994. Esse momento ocorreu justamente no jogo de volta contra os mesmos bolivianos. Um mês depois da débâcle andina, jogando no Arrudão, em Recife, o Brasil fez uma apresentação contagiante - após os jogadores terem inaugurado a tradição de entrar em campo de mãos dadas - e vingou-se com um inesquecível 6 x 0. Dali para frente, o grupo adquiriu as doses necessárias de autoconfiança e união.
No ar rarefeito
Pouca coisa mudou em relação ao confronto nos dias atuais. Jogando na altitude, a Bolívia continua incomodando. Longe dos Andes, entretanto, continua sendo goleada sem muita cerimônia. Com show de Romário, metemos 5 x 0 no jogo de ida das últimas Eliminatórias. Mas perdemos de 3 x 1 no jogo de volta, em La Paz. No último confronto, no qual eles atuaram sem seu principal craque - o ar rarefeito -, nova goleada brasileira: 6 x 0. Até Cris e Ânderson Polga marcaram. Portanto, a expectativa para um confronto numa cidade com ar respirável - ou quase -, entre a Seleção que ocupava o último lugar na classificação para a próxima Copa e os atuais campeões do mundo, não poderia ser diferente de um passeio brasileiro no Morumbi. Um 3 x 1 que poderia ter sido 6 x 1, ou até 8 x 1. Em ritmo de treino, os craques do Brasil estavam mais preocupados em dar espetáculo.
E a nova dupla?
Ronaldo e Adriano são parceiros - no sentido romariano do termo. Ou seja, fora de campo são muito amigos, muito unidos e fazem lobby um pelo outro. Já dentro de campo, mais ou menos como no fugaz período da dupla Ro-Ro, a coisa não é tão simples assim. Como ocorria na parceria com Romário, Ronaldo encontra em Adriano um atacante com características parecidas com as suas. Ambos gostam de jogar o mais próximo da área. E gostam de finalizar, mais do que servir aos companheiros. Vista dessa forma, não seria recomendável a escalação dos dois juntos. Na Copa América, vimos Adriano brilhar, enquanto Luís Fabiano, o companheiro de ataque com características parecidas de então, pouco produziu. Luís Fabiano foi mal porque saiu sempre da área para buscar jogo, o que não sabe fazer bem. Como Ronaldo jamais fará isso, ontem coube a Adriano a função altruísta.