O desfecho de três das mais importantes copas continentais de seleções - a Eurocopa, a Copa América e a Copa da Ásia - deixou os brasileiros em alta. Não, não é dos jogadores brasileiros que eu estou falando, posto que esses só puderam atuar na competição sul-americana. Refiro-me, na verdade, aos nossos técnicos de futebol. Mais precisamente a Parreira, que comandou o time B do Brasil na conquista da Copa América; a Felipão, que levou o limitado elenco de Portugal ao vice-campeonato europeu; e agora a Zico, o Galinho de Quintino, que conduziu a ainda mais limitada Seleção Japonesa ao título da Copa da Ásia. Trata-se de um fato inédito. Vez por outra até tivemos um técnico brasileiro, aqui e ali, fazendo um bom trabalho com seleções nacionais, como Didi no Peru, Zagallo no mundo árabe e Carpeggiani no Paraguai. Mas nunca essas seleções chegaram a decidir títulos continentais. Os jogadores de linha do Brasil sempre foram o mais luxuoso artigo do mercado internacional. Com Taffarel e Dida, nossos goleiros conquistaram seu espaço. Só quem ainda não gozava de respeito no exterior eram os técnicos, que agora já são vistos de outra forma.
Infelizmente, quando vemos nossos talentos do futebol fazendo sucesso lá fora, é impossível não lembrar de como andam ruins as coisas por aqui. Que belo Campeonato Brasileiro teríamos, com Felipão e Zico comandando clubes, com Dida fechando o gol de uma equipe ou, por exemplo, com os ronaldinhos se enfrentando nas tardes do Maracanã, com Kaká e Adriano dando seus rushes pelo Morumbi e com Roberto Carlos e Juninho Pernambucano estufando as redes do Mineirão. Devaneio? Sonho impossível? Pode ser. Mas a verdade é que não me conformo com essa situação da crônica fuga de talentos.
Somos mesmo o país do futebol?
Como pode ser que craques brasileiros dos mais diferentes setores de atuação consigam mostrar seu trabalho por aqui e os jogadores de futebol não? Ivo Pitanguy é o papa dos cirurgiões plásticos: opera no Brasil. Walter Moreira Salles e Fernando Meirelles são dois dos mais badalados diretores de cinema da atualidade: suas produtoras têm sede no país. Niemeyer é uma lenda da arquitetura: não se cansa de inaugurar projetos nas cidades brasileiras. Gisele Bündchen é a mais requisitada das top models mundiais: desfila várias vezes por ano no Brasil, faz comerciais por aqui, tem casa aqui. E por que isso não ocorre com nossos jogadores? Por que os brasileiros, que conseguem ver os projetos do Niemeyer e os filmes do Waltinho, só podem ver o Ronaldinho Gaúcho se forem suficientemente endinheirados para viajar até Barcelona? Afinal de contas, somos ou não somos o país do futebol?
Enquanto isso, no Brasileirão...
O Flamengo, num estádio a 120km do Maracanã, jogou ''em casa'' contra o São Paulo. Num choque entre o lanterna e um dos líderes do campeonato, em que vimos frente a frente o perigoso Luís Fabiano e o ainda mais perigoso Júnior Baiano, a vitória rubro-negra não deixou de ser surpreendente. Surpreendente e justa, diga-se. O São Paulo - assim como o Santos e o Goiás, que iniciaram a rodada nas três primeiras posições - foi um time sem qualquer inspiração. O tropeço dos líderes só serviu para mostrar uma vez mais o baixo nível da competição. No atual Brasileirão, quem jogar um pouquinho irá para a Libertadores. E quem mostrar algum padrão de jogo disputará o título. Para escapar do rebaixamento, basta fazer como Flamengo e Botafogo nas partidas de ontem: mostrar disposição.
Não posso acreditar que com bons estádios e muitos craques em campo a classe média brasileira - que paga R$ 80 ou R$ 100 para ver shows de artistas internacionais - perderia a chance de acompanhar o evento que, mais do que concertos pop ou musicais da Broadway, é a grande paixão nacional. Alguém poderá dizer que o futebol não é diversão de classe média, e que os estádios devem ser freqüentados apenas pelos mais pobres. Errado. Em qualquer país civilizado, os espetáculos esportivos são vistos ao vivo pela classe média, enquanto o povão acompanha pela televisão. Não poderia ser de outro jeito, já que, por definição, os estádios são feitos para abrigar uma minoria. Para atingir a massa, só mesmo pelas ondas do rádio ou da TV. Com estádios precários e ingressos a R$ 10, não atraímos nem a classe média e nem o povão. Com estádios modernos e ingressos mais caros, atrairíamos a classe média, e, conseqüentemente, os clubes teriam receita para pagar salários capazes de manter os nossos craques no país. Craques que hoje jogam apenas para gringo ver.