Favoritos tímidos

[19/JUL/2004]

Dez anos depois do tetracampeonato do futebol nos Estados Unidos, os comandados de Bernardinho conquistaram o tetracampeonato da Liga Mundial de Vôlei, jogando na casa do adversário. Tudo o que eu podia dizer sobre o Bernardinho - em especial o fato de ser ele o melhor técnico do mundo, entre os profissionais de todas as modalidades -, eu já disse. O favoritismo do nosso vôlei é patente. Não seria impossível voltarmos de Atenas com as medalhas de ouro no vôlei masculino e feminino, na quadra e na praia, trazendo ainda as duas medalhas de prata em disputa na praia. Quatro medalhas de ouro e duas de prata para o vôlei brasileiro, numa mesma edição dos Jogos Olímpicos, seria um feito e tanto. Basta lembrar que nossos vizinhos argentinos não ganham um ouro desde os jogos de 1952, em Helsinque.

Se o favoritismo do nosso vôlei é indiscutível, os favoritos do Campeonato Brasileiro de futebol continuam tímidos. No entanto, passadas 16 rodadas, já é possível fazer uma avaliação dos que podem sonhar com o título. Começo pelos paulistas, que vão muito bem, ocupando as três primeiras posições da classificação, com Palmeiras, Santos e São Paulo. O Palmeiras é o líder isolado. ''Mesmo sem jogar um grande futebol'' - se apressarão em complementar os críticos de plantão. É verdade que o time do Parque Antarctica não vem brindando com exibições de luxo. Só que ninguém pode negar o incrível espírito de luta do elenco. A garra e a velocidade do Palmeiras serão empecilhos para todo e qualquer time que passar pelo seu caminho. Não sei se o time, que no ano passado estava na Segunda Divisão, terá forças para brigar pelo título. Já a volta à Libertadores é um objetivo absolutamente plausível.

Santos: o melhor conjunto

O Santos não lidera o torneio, mas o elenco comandado por Luxemburgo, com craques como Diego e Robinho, e agora reforçado por Ricardinho, é favorito ao título. É verdade que o time levou um banho de bola do Fluminense que, não fosse a falta de pontaria de Marcelo e Alex, poderia até ter goleado. Mas no conjunto das atuações o time da Vila Belmiro é o melhor da competição. Já o São Paulo está em seu habitat natural: a terceira posição da tabela. Está assim há pelo menos três anos. Seu problema é que, na reta final, parece faltar força de caráter ao elenco. O único que realmente destoa na turma paulista é o Corinthians, mas mesmo o Timão ensaia uma recuperação e já se afastou da linha de rebaixamento.

Entre os cariocas, o Fluminense é o melhor. O time de Ricardo Gomes ainda não perdeu jogando em casa, algo fundamental numa boa campanha. Já para sonhar com o título, é preciso coragem. E coragem, em futebol, tem tudo a ver com a postura adotada nos jogos fora de casa, onde o Fluminense costuma atuar com mentalidade de time pequeno: recuado, tenso, tímido. Se jogar na casa dos adversários com a atitude adotada contra o Santos, o time das Laranjeiras poderá até sonhar com o título. A decisão está nas mãos de seu treinador e nos pés dos líderes do elenco - principalmente do inconstante Roger. O Vasco, que vinha jogando até mais do que o Flu, parece ter arrefecido sua arrancada em direção à parte de cima da tabela. A derrota de virada para a surpreendente Ponte Preta - uma equipe que eu julgava ''rebaixável'' e que está bem - reforçou a minha impressão sobre a fase cruzmaltina. A chegada do habilidoso Petkovic mudou os ares do clube. Pena que o veterano meia tenha dificuldades para atuar constantemente num campeonato tão desgastante.

Os lanterninhas cariocas

Flamengo e Botafogo... O que eu poderia dizer de animador para os torcedores desses clubes? O Botafogo começou o ano consciente de suas limitações técnicas e financeiras. E consciente também de que o tal fantasma da Segunda Divisão dificilmente deixaria de fazer uma ronda básica por Caio Martins. O Flamengo, por outro lado, se iludiu com a conquista do Cariocão e achou que a má fase do início do Brasileiro se devia apenas à fixação com a Copa do Brasil. A derrota para o Santo André foi um choque de realidade, do qual até agora a equipe não se recuperou. Márcio Braga foi para a Disney, Abel Braga foi para casa, e os problemas permaneceram onde estavam: elenco fraco, nervosismo, cobranças. As únicas palavras alentadoras que posso dirigir a rubro-negros e alvinegros são estas: observem as campanhas de Figueirense, Ponte Preta e Goiás. Clubes com elencos limitados de dar dó, mas que fazem campanhas sólidas. A receita desses clubes é mais trabalho, menos politicagem e muita firmeza de caráter. Uma boa fórmula - talvez a única - capaz de salvar Flamengo e Botafogo.

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