Numa semana em que o esforçado Once Caldas bateu o campeoníssimo Boca Juniors e ficou com o título da Libertadores, na qual a frágil e incrivelmente bela Maria Sharapova humilhou a marombada Serena Williams na final de Wimbledon e em que o surpreendente Santo André enterrou o sonho de milhões de rubro-negros em pleno Maracanã, não pude deixar de temer por Portugal na final da Eurocopa. É que nas decisões de campeonatos de seleções os donos da casa contam sempre com uma enorme dose de favoritismo. E numa semana de zebras isso não poderia ser bom para os nossos patrícios. Acontece que o técnico da Seleção Portuguesa se chama Luiz Felipe Scolari. E Scolari é um daqueles profissionais que, como Schumacher na Fórmula 1, parece incansável quando se propõe a provar sua capacidade de vencer. As zebras que andaram soltas na semana não chegaram perto de Schumacher, e eu achei que elas também pastariam longe do Estádio da Luz.
Competência é a palavra que aproxima o idiossincrático Felipão do imperturbável Schumacher. Eu fui um dos inúmeros cronistas esportivos que atacou o pragmatismo do treinador gaúcho durante a fase de preparação da última Copa. Mas não acho que as críticas tenham sido em vão. Afinal de contas, graças à grita da imprensa, o Brasil jogou com Kleberson e Gilberto Silva, em lugar dos queridinhos do treinador: Tinga e Eduardo Costa. Criticado, Felipão soube ceder na formação do meio-campo, ainda que não tenha agido da mesma maneira em relação ao clamor popular por Romário. O título no Japão mostrou que o treinador tinha um plano - e que seu plano foi seguido à risca. Confesso que subestimei a capacidade daquele homem simples, quase bronco, e aprendi uma boa lição em terras orientais.
Um grande motivador
Durante a Copa de 2002 pude observar de perto os métodos daquele técnico de Passo Fundo. Quem já viu um Luxemburgo, um Parreira ou um Carlos Bianchi comandando um treinamento jamais se impressionará com uma prática liderada por Felipão. O gaúcho não dá cátedras táticas ou ensaia jogadas formidandas. Ele basicamente trabalha obsessivamente a marcação e treina inúmeros cruzamentos, defensivos e ofensivos. Em compensação, poucos técnicos são tão eficientes quando o assunto é liderança. Scolari sabe motivar um grupo como ninguém. Nos times dele, todo mundo se sente craque. Foi assim na Seleção Brasileira, onde todos eram craques mesmo, mas foi assim também no Grêmio, no Palmeiras e até no modesto Criciúma. A atual Seleção de Portugal está mais para os clubes que Felipão comandou do que para o Brasil de 2002. Ainda assim, a auto-estima que o treinador injetou no grupo luso fez com que um projeto de Denílson chamado Cristiano Ronaldo jogasse com a mesma atitude dos seus xarás do Real Madrid e do Barcelona. Com a mesma atitude, mas infelizmente não com o mesmo talento.
O estilo Felipão
Recordo-me de uma tarde no centro de treinamento da Seleção em Ulsan, Coréia, na qual compreendi o tal estilo Felipão. Fazia muito calor e ninguém se empenhava muito - até porque a recente contusão de Emerson num treino de reconhecimento de gramado ainda impressionava os jogadores. O goleiro Marcos treinava com os reservas, para que pudesse ser exigido pelos craques do time titular. Lá pelas tantas, num chute despretensioso, o goleiro preferiu fazer golpe de vista em vez de saltar para defender a bola. Ao perceber a atitude do goleiro titular, Scolari não titubeou: parou o treino e, diante da imprensa, deu uma furiosa bronca em Marcos. ''Não quer treinar, não precisa! Pode passar para o outro gol.'' Ainda furioso, depois de alguns instantes ele emendou: ''Quer saber? Não vai treinar nem na reserva. Você vai é dar voltas ao redor do campo.'' E lá foi Marcos dar seus trotes, sozinho e constrangido, na frente dos jornalistas. No treinamento seguinte, é claro, ninguém fez corpo mole.
Nem um grande general, no entanto, é capaz de impedir a vitória de um exército sólido e organizado como foi o time da Grécia. Quiseram os deuses do futebol - esses ardilosos! - que o gol do título grego tivesse nascido da jogada mais treinada pelo comandante brasileiro. Muitos séculos depois da guerra de Tróia, os gregos voltaram a introduzir um grupo bem treinado na cidadela adversária e obtiveram surpreendente triunfo. A derrota não reduz os méritos de Felipão. Ele teve pela frente um rival que, se não apresentou um futebol belo como a Sharapova, jogou com a aplicação tática do Once Caldas e a garra do Santo André. Parabéns à Grécia, que bateu os portugueses em dois jogos na mesma competição e recebeu um belo presente neste ano olímpico.