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A era do rádio


Não vivi os anos 50 no Rio de Janeiro, fato que muito me constrange. Em função dessa injustiça divina, não pude experimentar a emoção de acompanhar as aventuras do Sombra e O Direito de Nascer, não provei as Pílulas de Vida do Dr. Ross nem o refrigerante Guará - mais refrescante não há. Também não passei minhas tardes entre a Praça Mauá e a Cinelândia, em busca de autógrafos dos astros da Rádio Nacional e da Mayrink Veiga. Tampouco tive meus sonhos embalados pela voz da Emilinha Borba. É inegável: eu perdi a era de ouro do rádio. No entanto, acredito, modestamente, ter vivido a era de ouro do rádio esportivo. E é sobre ela que eu queria desfilar algumas sentimentalidades.

A maldição de ter nascido em 1965, que me impediu de provar o Guará, me privou, também, da gaitinha do Ary Barroso, da locução fleumática de Oduvaldo Cozzi e da limpidez ritmada de Pedro Luiz. Peço desculpas aos fãs dos três para avançar alguns anos no tempo, até meados dos anos 70, quando meus sonhos eram embalados não pelas cantoras do rádio, mas por figuras como Waldyr Amaral, Jorge Cury, Mário Vianna, Doalcei Camargo, José Carlos Araújo, Orlando Batista e Osmar Santos. Eu poderia contar histórias maravilhosas de cada um deles, comentar seus estilos, seus gritos de gol. Poderia contar como Osmar e Zé Carlos renovaram a linguagem das transmissões esportivas, incorporando gírias e bordões populares - como ''Deu um cheguinha na esquerda'' e ''É fogo no boné do guarda'' -, ou ainda descrever a emoção de receber ''um abração do Orlandão'' após a conquista do penta no Japão, onde o dono do maior vozeirão do rádio cobriu sua 14ª Copa. Mas eu preferirei dedicar o espaço restante à trinca Waldyr Amaral, Jorge Cury e Mário Vianna - ao lado da qual passei, radinho colado à orelha, alguns dos melhores momentos de minha vida.

Lá pelos idos dos anos 70, a Rádio Globo do Rio encontrou a fórmula perfeita para a transmissão de um jogo de futebol: Waldyr Amaral narrava o primeiro tempo, Jorge Cury o segundo, e Mário Vianna - ''com dois enes'', como ele fazia questão - comentava a arbitragem. Entre ir ao Maracanã sem o radinho ou ficar em casa para ouvi-los, eu preferia ficar em casa. Claro que eu conseguia conciliar as coisas, levando o radinho para o Maracanã. Roubaram-me uns três, o que em três décadas de arquibancada não é tão mal. O início solene das transmissões preparava o clima da grande tarde de futebol que nos aguardava. Waldyr Amaral atacava: ''Você ouvinte, é a nossa meta. É pensando em você que procuramos fazer o melhor.'' Sua voz anasalada e pausada dava o tom exato do que significava o futebol para um menino de 10 anos de idade: um embate maior do que a vida.

Minha existência insossa ganhava nova dimensão quando eu ouvia: ''Avança Rodrigues Neto pela meia-esquerda, gira, procura o avanço de Paulo César e lança. Paulo César recebe, calcula o centro, executa... Atenção! Recebeu Rivelino. Passou por um, por dois, ele desfere a patada atômica... e é gol! Goooool do Fluminense! Ri-ve-li-no! Dez, é a camisa dele. Indivíduo competente esse Rivelino. Tem peixe na rede do Flamengo... Choveu na horta tricolor!'' Todos os gols narrados pelo Waldyr seguiam esse padrão de bordões. Mas o gol só valia mesmo se Mário Vianna, com seu gigantesco binóculo, analisasse a jogada e gritasse: ''Goooooool Legaaaaaal!'' Se o vovô Mário bradasse ''Banheira!'', ''La mano!'' ou simplesmente ''Ilegal!'', era como se o gol não tivesse existido. A autoridade de Mário Vianna era tão grande que, muito antes do tira-teima, ninguém discutia arbitragem. O que ele dizia tinha o peso de mil escrituras - e fim de papo.

Eu disse fim de papo? Bem, isso me remete a Jorge Cury. Enquanto Waldyr Amaral valorizava o início do jogo, Jorge Cury era o mestre do final das partidas. ''Quareeeeeenta e quatro minutos de luta na segunda etapa! É a última volta do ponteiro!'' E quando o ponteiro cumpria a derradeira volta, Cury gritava: ''Fim de papoooo! Denis, Washington, Iata!'' Era a convocação dos repórteres de campo. Tudo em Cury era épico. Em tudo, ele pingava gotas do mais puro drama. Ninguém gritava um ''Golaço-aço-açooooo!'' como ele - especialmente quando o gol era do Flamengo. O estilo furioso do rubro-negro Cury era o contraponto perfeito ao ritmo cadenciado do vascaíno Waldyr. Juntos, eram absolutamente insuperáveis. Quem era o melhor? Quando garoto, confesso que preferia a explosão de Cury, mas a experiência me fez apreciar cada vez mais a elegância de Waldyr. Como se diz na ópera, são duas vozes que hoje estão mortas. Mas seus gritos de gol continuarão ecoando através dos séculos nas ondas do infinito. E ocupam, desde sempre, um lugar especial nos corações dos apaixonados por futebol.


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[10/MAI/2004]


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