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Tarde de campeões
[19/ABR/2004]
É bonito ver o Brasil vazio na tarde de domingo, como cantava Milton Nascimento na trilha sonora do documentário sobre a carreira do grande Tostão. Ao vivo nos estádios ou pela televisão, os torcedores de todas as regiões do país passaram a tarde de ontem hipnotizados pelas decisões dos campeonatos estaduais. À noite, depois dos jogos, as mesas-redondas fervilhavam com a vibração dos vencedores, o choro dos vencidos, jogadas polêmicas, lances duvidosos, replay dos gols, melhores momentos, provocações variadas, enfim, o gostoso ritual dos domingos de futebol, que através das décadas tanto influenciou o caráter do nosso povo. Exceto pela surpresa do Crac, do Potiguar de Mossoró e da final paulista, que reuniu duas equipes sem conquistas estaduais prévias, todas as outras decisões colocaram frente a frente rivais de enorme tradição. E a verdade é que tanto o ineditismo paulista quanto a tradição dos demais confrontos foram ingredientes que ajudaram a despertar o interesse do torcedor, fazendo com que Flamengo, São Caetano, Cruzeiro, Coritiba, Figueirense, Crac, Potiguar, Brasiliense, Náutico e Vitória se sagrassem campeões diante de grandes platéias.
A partida foi perfeitamente resumida pelo colega Paulo Soares, na redação da ESPN Brasil: um típico duelo de um time grande com um time pequeno. O time grande era o São Caetano, que apesar de fundado em 1989 apresenta um impressionante histórico de campanhas nos últimos anos. O time pequeno era o valente Paulista, mais tradicional, com mais história, mas com um elenco menos experiente. O São Caetano jogou como time grande porque, após conseguir o gol aos 20 minutos - o que transformou a missão do Paulista numa empreitada quase impossível -, tocou a bola com calma e simplesmente administrou a partida. O Paulista até que conseguiu criar oportunidades perigosas, mas o fato é que o Azulão mandou nas duas partidas. É muito bom para o futebol brasileiro que um time com a estrutura, com a seriedade, com o profissionalismo e com a visão de planejamento do São Caetano tenha conseguido se livrar da pecha de eterno vice-campeão. Ungido pelo título histórico, o Azulão partirá em busca de conquistas nacionais e internacionais. O Paulista tem um belo desafio, também: ele poderá ser o próximo São Caetano. O clube acaba de fechar um grande acordo com o PSV da Holanda, que poderá trazer grandes dividendos para o clube de Jundiaí. Manter o competente Zetti no comando da equipe deveria ser o objetivo número 1 do novo projeto.
O Flamengo conquistou o seu 28º campeonato carioca com a mais absoluta justiça. Dominou seus adversários em quase todos os clássicos que disputou, sendo que venceu bem todos os clássicos decisivos do torneio. Enquanto o Vasco descumpriu as ordens de Geninho para impedir os avanços de Felipe na base de botinadas, o jogo até que esteve favorável ao time de São Januário. Mas bastou que, logo após o gol de empate rubro-negro, Coutinho resolvesse atender as ordens do treinador para que, com sua expulsão, o Flamengo assumisse as rédeas da partida. Foi um castigo merecido para um treinador que, mesmo com todas as explicações e ressalvas, deu uma instrução inaceitável para seus jogadores. Erros de arbitragem? Outra vez, aconteceram. Entretanto, se Valdir estava impedido no importante gol do primeiro tempo, Jean estava igualmente fora de jogo no gol que decidiu o clássico. E se Felipe foi o grande jogador do campeonato, Jean foi o craque da finalíssima. Três gols numa decisão é façanha para marcar o currículo de qualquer jogador - e o atacante do Flamengo merece todos os aplausos pela brilhante atuação de ontem. Destaque também para dois veteranos: o incansável Zinho e o raçudo comandante Abel, que formaram a perfeita combinação de experiência e garra, indispensável para equipes que sonham com títulos.
Resolvidos os Estaduais, as atenções se voltarão para o Campeonato Brasileiro - na verdade, os campeonatos brasileiros. Alguns dos campeões do domingo estarão na Série A, mas outros tantos disputarão a Série B ou até a Série C. O sucesso no Estadual, que fique bem claro, especialmente para os dirigentes que ontem deram a volta olímpica, não é garantia de êxito nos campeonatos nacionais. Quase todo ano, encontramos campeões estaduais entre os rebaixados dos certames nacionais. São equipes que acreditaram no conto da supremacia local - que vale muito pouco quando as disputas são mais longas, equilibradas e abrangentes. Portanto, que todos bebam o chope da vitória, descansem bastante hoje, mas, amanhã, coloquem mãos à obra. O alerta que faço aos campeões, claro, tem peso dobrado em relação aos que ficaram pelo caminho. Mas, como estamos na segunda-feira da santa ressaca, meus parabéns a todos os campeões.
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