As decisões dos campeonatos estaduais do Rio e de São Paulo apresentam confrontos diametralmente opostos. O Cariocão coloca frente a frente dois rivais tradicionalíssimos: Flamengo e Vasco. No Estádio do Pacaembu, 450 km ao sul, o Paulistão começou a ser decidido por duas equipes que jamais conquistaram um título na Primeira Divisão. Os mais precipitados poderão concluir, com base nisso, que o futebol carioca vai bem, enquanto o paulista encontra-se de cabeça para baixo - ou de ponta-cabeça, para usar a expressão mais adequada ao Estado em questão. A realidade não é bem essa. Se os finalistas do Rio apresentassem elencos fortes, finanças sólidas e organização exemplar, eu até poderia concordar com a interpretação. A realidade, porém, é que Vasco e Flamengo compartilham a mesma e terrível situação financeira, administrações polêmicas e elencos apenas razoáveis.
Quer dizer então que os clubes paulistas é que estão por cima? Também não exatamente. Os grandes de São Paulo possuem semelhantes problemas de caixa, gestão e elenco. Nenhum deles chegou à decisão, é verdade. Mas, no fundo, isso pode ser interpretado como um sinal de que, no futebol paulista, os clubes de menor tradição e do interior têm mais chances de prosperar. No interminável mandato da atual administração da Federação do Rio, os amados clubes de bairro - como América, Bangu, São Cristóvão, Bonsucesso, Madureira e Olaria - só fizeram definhar. E no interior, o único que cresceu, da forma que sabemos, foi o Americano. No futebol carioca, os grandes só chegam às finais porque os pequenos estão em vias de desaparecimento. Há que lembrar ainda que, como prêmio de consolação, dois dos grandes de São Paulo seguem na Libertadores, torneio que há muito tempo não é freqüentado pelos cariocas.
Dentro de campo, o que se viu em São Paulo foi uma partida dominada pela equipe mais equilibrada - nas últimas rodadas do campeonato e nas últimas quatro temporadas do futebol brasileiro. Pela primeira vez em sua curta história, o Azulão teve todo o favoritismo pesando sobre os próprios ombros. Se isso fez com que a equipe partisse para o ataque com determinação, também facultou ao Paulista a arma com a qual o time do ABC tantas vezes complicou seus adversários: o contra-ataque. E foi num contra-ataque que o time de Zetti abriu o marcador. O São Caetano não se abalou, continuou pressionando e não fosse pela espetacular atuação de Márcio, o goleiro da equipe de Jundiaí, o primeiro tempo poderia ter terminado com um amplo marcador em favor dos comandados de Muricy. No segundo tempo, nem Márcio conseguiu salvar o Paulista das investidas de Warley, que voltou ao time para decidir o jogo. Apesar de ainda não ter garantido a taça, o Azulão construiu uma expressiva vantagem. Se perder o título agora, o que eu julgo improvável, a fama de eterno vice será pespegada de uma vez por todas à imagem do clube.
No Rio, Vasco e Flamengo fizeram um jogo dominado amplamente pelos rubro-negros, até que um dos muitos erros do péssimo árbitro José Antônio da Silva Santos mudou o destino da partida. O juiz, que já havia ignorado um pênalti claro em Felipe, além de ter consentido um ainda mais claro rodízio de faltas sobre o camisa 10 da Gávea, deixou de expulsar Wescley por um criminoso coice - a palavra é essa mesmo - no joelho de Íbson. Bem-feito para o Brucutu que o segundo gol do Fla saiu justamente da cobrança daquela falta. Minutos depois, por uma entrada bem menos violenta, o juiz, com tantos nomes comuns e tantas interpretações incomuns, mostrou cartão vermelho para Da Silva e a partida se transformou. Abel reclamou, com razão e sem modos, e foi expulso. Júnior Baiano entrou para reforçar a defesa, envolveu-se numa confusão com Wescley e ambos deixaram o gramado. Contra um adversário com nove jogadores, o Vasco encontrou espaços e, através de uma linda jogada de Coutinho, o gol que pôs o jogo da decisão outra vez no pano. Se repetir a atuação inspirada que mostrou até a expulsão de Da Silva, o Flamengo terá o favoritismo. A preocupar sua torcida, além dos erros de arbitragem, as constantes desaparições de Felipe na reta final das partidas.
Apesar dos bons jogos, fica sempre aquela sensação de que, se bem administrado pelos cartolas dos clubes e federações, o futebol dos dois Estados poderia estar num nível muito melhor. Infelizmente, esses cartolas não parecem querer largar a rapadura tão cedo - e eles têm instrumentos administrativos para se perpetuar no poder. De forma que não será tão cedo que veremos os dois campeonatos ''de cabeça para cima''. E eis aqui uma expressão sobre a qual não existem divergências idiomáticas entre cariocas e paulistas.