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A nau dos desesperados


Winston Churchill costumava dizer que existem mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas. De fato, a estatística é uma ciência estranha. O leitor não crê nisso? Permita-me exemplificar. Vamos supor que, pelos próximos 30 dias, este colunista decida entupir-se de comida duas vezes ao dia, numa churrascaria rodízio, enquanto o estimado leitor, ao contrário, pratique o mais absoluto jejum. Passado um mês, teremos um colunista obeso e um leitor desencarnado. Apesar disso, não seria impossível encontrarmos um estatístico de plantão, capaz de formular uma teoria para provar que, na média, eu e o leitor fizemos uma boa refeição por dia na tal churrascaria, e estaríamos ambos passando bem. É claro que estou exagerando umas coisas e simplificando outras - como os estatísticos, os escritores têm lá suas manias -, mas o fato é que poucas coisas conseguem torturar tanto os torcedores dos clubes ameaçados pelo rebaixamento, nestes últimos suspiros do Campeonato Brasileiro, quanto os cálculos e as projeções estatísticas.

Como as projeções são realizadas com base no histórico dos clubes - e poucas coisas são menos confiáveis que a performance de um time de futebol -, toda semana vemos o famoso número mínimo de pontos para uma equipe se livrar do rebaixamento ser modificado. Recordo-me que quando chegou ao 49º ponto, há algumas rodadas, o Vasco foi categoricamente apontado como livre da degola. Poucos dias depois, várias equipes chegariam aos 49 pontos se sentindo mais ameaçadas do que nunca. O Vasco escapou, sim. Mas escapou porque passou dos 50 pontos. Se estivesse com 49, continuaria tendo de rebolar para não cair. Isso ocorre porque uma coisa não pode ser prevista pelo frio cálculo dos matemáticos: a brusca mudança de comportamento das equipes na reta final de uma competição.

Não é sempre que um time já garantido na Libertadores se mata em campo a poucos dias das férias. Da mesma forma, clubes que não lutam por algo em especial tendem a escalar equipes recheadas de reservas e a perpetrar atuações sonolentas, pensando já nas festas de fim de ano. Em situação oposta, os integrantes da nau dos desesperados, os verdadeiramente ameaçados pelo rebaixamento, podem se comportar como aquela ratazana que foge o tempo todo do gato, mas que, quando se vê encurralada, grita como uma fera, distribui dentadas e, não raro, consegue amedrontar seu predador. O mesmo vale para os clubes que ainda lutam por uma vaga nas copas continentais, que podem complicar mais do que aquelas que vão à sua frente na classificação. Por conta de tantas mudanças de atitude, os resultados das últimas rodadas tendem a ser imprevisíveis, complicando as contas dos estatísticos. O fenômeno se fez notar já na rodada passada, quando o Fluminense comemorou a vitória sobre o São Caetano, no sábado, como o fim da agonia - até que viu seus perseguidores obterem, um a um, vitórias igualmente consagradoras no domingo.

Na rodada deste final de semana, o fenômeno se repetiu nos empates dos ameaçados Grêmio, Fortaleza e Ponte Preta. O Grêmio conseguiu a maior proeza, arrancando um empate na Vila Belmiro, diante do vice-campeão Santos. O Fortaleza jogou em casa contra o Coritiba, postulante a uma vaga na Libertadores, e fez um gol salvador no apagar das luzes. Já a Ponte Preta, tida e havida como a equipe mais ameaçada, trouxe um pontinho do Maracanã e agora poderá tentar, em casa, salvar a pele e sepultar o Fortaleza. Esse jogo, juntamente com São Caetano x Internacional, promete ser o grande embate da rodada derradeira. Outros desesperados não conseguiram resultados favoráveis, casos de Fluminense, Bahia e Paysandu. O tricolor carioca até que terminou o primeiro tempo carimbando a faixa do campeão brasileiro. Mas não resistiu à atuação de gala de Alex & Cia. na segunda etapa e acabou goleado. O clube pode garantir sua permanência com um empate. Ou mesmo sem marcar pontos, mas aí precisaria torcer por uma combinação de resultados.

Fluminense e Grêmio fizeram de tudo para cair, mas creio que conseguirão escapar. Situação complicada mesmo é a do Bahia, que segura a lanterna e recebe o Cruzeiro, babando de vontade de terminar o campeonato com a fabulosa contagem de 100 pontos. Só que a Fonte Nova lotada é uma prova de fogo para qualquer time, até mesmo para o Cruzeiro - e isso acaba deixando totalmente aberta a decisão dos dois infelizes rebaixados. Os estatísticos continuarão a brandir suas calculadoras por mais uma semana, tentando apurar as probabilidades percentuais de cada um dos seis desesperados. Já o torcedor, tão sofrido e calejado, em lugar da calculadora vai continuar preferindo artefatos mais tradicionais, como velas, terços, amuletos, patuás...


[08/DEZ/2003]


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