E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Solucionática
Mais seguro

Horóscopo

Língua Viva
Palavras que intrigam

Gente
Tal mãe, tal filha

Charge Online

Márcia Peltier
Espírito esportivo

Caixa de Ferramentas

InSite
Além dos fatos

Informe de Arte
Revoada na Gávea

Nas Páginas da História
03 de novembro no JB

Informe Econômico
A solidão do poder

Boechat
Novos vôos

Gilberto Amaral
Cidadã debutante

Marcus Barros Pinto
O atributo de certo tributo

Marcos Caetano
Vida de cronista

Hildegard Angel
Debret no Cosme Velho



Vida de cronista


Longe de mim afirmar que o ofício de cronista esportivo é difícil ou desagradável. Sou perfeitamente consciente da delícia que é poder, em plena vida adulta, trabalhar com aquilo que preencheu as tardes de domingo da minha infância, algo que, se não é a coisa mais importante do mundo - longe disso -, é uma das grandes fontes de alegria e entretenimento dos brasileiros: o futebol. No entanto, como todas as profissões do mundo, a do comentarista também tem seus sacrifícios. Bem menores do que os da grande maioria das ocupações, é verdade, mas, ainda assim, sacrifícios. Um deles, por exemplo, é não poder ir a um estádio de futebol da mesma maneira que nos velhos tempos. Como a paixão pelos clubes de futebol é comparável, muitas vezes, ao mais retinto dos fanatismos religiosos, sinto que criticar um time é mais ou menos como atacar Alá, Jeová ou o Espírito Santo. De forma que é impossível ir aos estádios sem ouvir uns quantos impropérios. Da torcida adversária, que sabe para qual time torço, ou da minha própria torcida, que se divide entre os que acham que eu exagero nas críticas e os que consideram que eu tinha de pegar mais pesado.

Talvez por isso, muitos colegas de ofício optem por não divulgar o clube do coração para o grande público. Dizem que não têm time, que torcem para uma obscura agremiação do interior ou simplesmente se calam. Eu não saberia fazer isso, já que, se me tornei cronista esportivo, isso ocorreu porque amo o futebol. Como no futebol não existe amor platônico ou universal, antes de amar o jogo, amo um time. Se eu negasse esse amor, estaria negando todo o resto. De qualquer maneira, respeito os que fazem mistério, ainda que saiba que todos torcem por um clube - às vezes de forma apaixonada, beirando o vexame. Poderia citar Fernando Pessoa e dizer que não é só o poeta que é um fingidor, mas fico com Nelson Rodrigues, que era do ramo: ''O ser humano é capaz de tudo, até de amar sinceramente. Só não é capaz de ser imparcial.'' Tento sempre ser imparcial, mas, caso não consiga, ao menos tudo ficará transparente.

Há uma outra complicação na vida dos analistas esportivos que é justamente a obrigação de acompanhar o assunto que se vai comentar. Ora, é claro que é ótimo ver um jogo de futebol. Ver vários, melhor ainda. Só que quando atravessamos uma época assim, com o Brasileiro e a Série B pegando fogo, enquanto a ESPN transmite o campeonato italiano, o inglês, o espanhol, o alemão, o holandês e - ufa! - a Liga dos Campeões, nossas esposas têm de ser como as mulheres de Atenas da canção do Chico Buarque. Eu falei Atenas? Xi... Em 2004 teremos Jogos Olímpicos e, com eles, mais viagens, textos, transmissões esportivas - e crises conjugais. Sorte que a dona Leila Caetano é gente fina, uma alma paciente e abnegada que converte nossos quase 18 anos de casamento num dos recordes do setor. Vale lembrar que essa história de esposas abnegadas é apenas um modo de dizer. No caso da minha amiga Soninha Francine, o abnegado de plantão é o marido. Entretanto, sempre que topam com um jogo como o Santos x Corinthians de ontem, os cronistas esquecem essas pequenas dificuldades e agradecem aos deuses do esporte a maravilhosa oportunidade.

O jogo na Vila Belmiro foi fantástico. O Santos começou imprensando o adversário, que suportou bravamente e respondeu com inteligentes contra-ataques. Assim surgiu o primeiro gol do Timão, que quase foi para o intervalo com a vantagem no placar. Quase, não fosse pelo fato do Peixe ter Robinho. Aquele que não sabia chutar e agora mete mais gols de fora da área do que Diego. Aquele que os torcedores adversários chamam de triatleta - porque corre, pedala... e nada. Nada?! Robinho continua correndo e pedalando, mas hoje faz absolutamente de tudo na equipe do Santos. No segundo tempo, a qualidade do elenco santista falou mais alto e o time deitou e rolou. No mais, tivemos outro capítulo da novela da luta para escapar do rebaixamento - um capítulo no qual ninguém sorriu no final - e a rodada de estréia da fase 3.0, versão Primavera de 2003, do grande videogame que é a Série B. Videogame nem seria a imagem correta, posto que nesse tipo de jogo é comum que os que marcam muitos pontos nas fases preliminares acumulem vidas para perder nas fases decisivas. Na Segundona, não tem vida extra. Quem tropeçar agora perde tudo o que conquistou até aqui. Agora com licença, porque se eu não largar o computador e o controle remoto para ir ao cinema com a patroa quem cairá para a segunda divisão sou eu.


[03/NOV/2003]


   Home > Colunas > Marcos Caetano

Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Acelera
Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas



Aumentar letrasDiminuir letrasVersão para imprimirEnviar matéria

Promoções

Serviços




Área do leitor



Assinaturas


Rio:
(21) 2323-1000

Demais estados:
0800-707-2000

Horário de atendimento:

• Segunda à sexta-feira de 6h30 às 18h

• Sábados, domingos e feriados de 7h às 14h