O domingo esportivo começou ao som do ronco dos motores da Fórmula 1. Michael Schumacher chegou ao circuito de Monza, tradicional reduto ferrarista, tendo em seu encalço o atrevido Montoya e o calculista Raikkonen, respectivamente a um e dois pontos dele na classificação do campeonato. Uma distância tão curta entre os líderes, a três etapas do fim da temporada, parecia algo impossível numa categoria que, nos últimos anos, teve temporadas sonolentas e decididas antecipadamente. O regulamento foi mudado, as equipes que vinham comendo poeira da Ferrari se mexeram e o reinado do alemão foi colocado em xeque. Só que, no automobilismo como no futebol, duas coisas têm inegável peso sobre os resultados: o talento dos atletas e as manobras de bastidores.
No quesito talento, Schumacher dispensa comentários. Com um chega para lá categórico quando foi ameaçado por Montoya após a largada e uma boa negociação de ultrapassagens sobre os retardatários nas últimas voltas, o pentacampeão mostrou que não vai passar a coroa facilmente. Já no quesito manobras de bastidores, os dirigentes da Fórmula 1 só perdem mesmo dos cartolas do futebol brasileiro. A grande polêmica dos bastidores da categoria este ano envolveu os fabricantes de pneus. Mutretas, espionagem, interpretações forçadas do regulamento, trocas de acusações, processos... As equipes fizeram de tudo para calçar seus carros com pneus envenenados, que garantem preciosos segundos no tempo final das provas. Difícil saber quem jogou limpo e quem fez armações, já que ninguém é santo nessa história. Mas se alguém ainda duvida de como é insana a rivalidade no automobilismo, vale relembrar uma história que foi contada pelo Galvão Bueno durante a transmissão da corrida de ontem.
Galvão é amigo de Gherard Berger, que foi companheiro de equipe de Ayrton Senna nos áureos tempos da McLaren, e garante que o austríaco sempre foi uma das figuras mais queridas da Fórmula 1, por seu grande senso de humor. O locutor revelou que, certa feita, ele e Senna encheram os sapatos de Bergher com espuma de barba, impedindo o piloto de participar de um evento que exigia traje social. Pois muito bem. Depois de ter descoberto os autores da gozação, Bergher, para se vingar, simplesmente colocou quatro comprimidos de sonífero num suco de laranja - e tentou servir a beberagem para Galvão. ''Por sorte recusei aquele suco, porque se tivesse bebido teria caído no sono e não teria narrado o campeonato do Senna naquela temporada.'' É isso mesmo. O ''gente boa'' da Fórmula 1 acreditava que para vingar a inocente brincadeira da espuma no sapato não estaria mal lascar quatro - não deixou por menos - comprimidos de medicação, tarja preta, na bebida do amigo, para impedi-lo de trabalhar num dos momentos mais importantes de sua carreira. Esse é o cara bonzinho da Fórmula 1. E aí eu concluo: imaginem os malvados!
No futebol, depois do pit-stop para a disputa das partidas classificatórias para a Copa de 2006, o Brasileirão também acelera em sua reta final. A disputa também é muito acirrada entre os dois líderes, Cruzeiro e Santos, com uma terceira força correndo por fora. O Peixe e a Raposa, que no sábado golearam categoricamente seus adversários, são Schumacher e Montoya - ou Montoya e Schumacher, dependendo do gosto do freguês. Já o São Paulo surge como uma espécie de Raikkonen, que, se não chega a encantar, ao menos continua sonhando com o título. No fundo da classificação, algumas minardis e saubers engalfinham-se numa luta de desesperados. Os tricolores Fortaleza e Grêmio, que comemora o centenário hoje, fecham o grid.
O domingo terminou com um clássico que já decidiu Campeonato Brasileiro e hoje atravessa dias modestos. Fluminense e Vasco fizeram um jogo movimentado, ainda que de baixo nível técnico. O Vasco, que conta com o talento de Edmundo, começou pressionando, enquanto o Fluminense, mesmo desfalcado, era voluntarioso e tentava tabelar em direção ao gol. Na segunda etapa, Mauro Galvão adiantou a marcação cruzmaltina e asfixiou o poder ofensivo do adversário. A expulsão de Wecsley não devolveu o ânimo ao Flu, que teve medo de ousar. Foi quando, após perder um gol feito, Edmundo cruzou na medida para Ozéia definir a partida. O Tricolor, que não conseguiu bater o rival em 2003, continua lutando apenas para não cair. Uma autêntica Minardi.