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A longa estrada


Recomeçamos, uma vez mais, a caminhada para a fase final de uma Copa do Mundo. Digo fase final porque a própria Fifa fez questão de mudar o antigo conceito de eliminatória. Para todos os efeitos, a Copa 2006 começou ontem para nós. Os torneios classificatórios são a primeira etapa de um longo campeonato, cuja fase final será disputada na Alemanha, apenas pelos privilegiados que carimbarem seu passaporte para a grande festa. O Brasil, que jamais deixou de participar do grande banquete da fase final, já conseguiu sua passagem das mais diferentes formas. No início, quando o futebol não era ainda essa febre que domina os corações e mentes de todo o mundo participamos como convidados. E todos, exceto o país anfitrião, eram convidados.

Anos mais tarde, quando o número de interessados em participar da grande festa do futebol superou o número de vagas disponíveis, surgiram as eliminatórias, que agora são chamadas de primeira fase, ou fase de classificação. Todas as vezes que disputamos tais torneios, conquistamos nossa vaga na bola. Às vezes com extrema facilidade, outras na base do sufoco. Em algumas ocasiões, quando éramos, como agora, os campeões defensores, passamos diretamente à fase final. Como conseqüência de uma decisão absurda e politiqueira, caberá ao Brasil a distinção de ser o primeiro país a jogar a fase inicial com a Copa do Mundo debaixo do braço. A razão é uma só: valorizar, com a presença do campeão, o torneio preliminar.

Se já acho absurdo os sete países campeões terem que passar por tal embaraço, que dirá o atual campeão. Fico imaginando o vexame que seria uma Copa sem a presença da seleção que defende o título. Será que eles dariam um jeitinho de convidar-nos, no caso de um improvável tropeço? Não acho difícil. Difícil mesmo, caro leitor, é perdermos essa vaga no campo. Sim, porque se é verdade que o futebol é um esporte coletivo, é também verdade que a coletividade é uma combinação de individualidades. E, no terreno das individualidades, temos uma geração excepcional. Como conhecemos o talento de Parreira para dar padrão de jogo às equipes que comanda - um padrão que pode às vezes ser até um tanto monótono, mas que é sempre efetivo - não podemos considerar ousados os que, como eu, afirmam que já estamos na Alemanha. Até a dupla Parreira e Zagallo, tão comedida antes da Copa de 1994, também garante que estaremos lá.

O elenco do Brasil para a próxima Copa é, basicamente, o time que conquistou o mundo em Yokohama - agora já sem o fracasso de 1998 a assombrar parte de seus integrantes - com uma série de reforços de luxo. Divido a lista de Parreira em quatro grupos. O primeiro é o dos jogadores consagrados, verdadeiras referências históricas em suas posições. Ronaldinho, Roberto Carlos, Cafu e Rivaldo, caso decidissem pendurar as chuteiras hoje, já estariam no hall da fama. No segundo grupo estão os jogadores que venceram em 2002 como coadjuvantes, mas que agora são candidatos a estrelas. Aqui temos Ronaldinho Gaúcho, Dida e até Kaká, caso faça o que se espera dele no Milan. O terceiro grupo é o dos operários. Jogadores que não são gênios da bola, mas possuem aplicação tática. É o caso dos zagueiros Lúcio e Roque Júnior, que fizeram uma boa copa no Oriente.

Finalmente, o quarto grupo, que nos pode surpreender gratamente. Trata-se da nova geração de ótimos jogadores que vem surgindo no Brasil - Diego, o zagueiro Alex, Renato, Elano -- além de uma fênix ressurgida das cinzas: o meia Alex. Nosso banco agora é muito melhor do que em 2002, e isso é relevante. Apenas duas coisas precisam ser trabalhadas por Parreira. A primeira é aceitar que, frente a determinados adversários, nada é mais inútil do que um segundo volante. O que fará esse pobre-diabo num Brasil x Venezuela da vida, onde o adversário sequer se anima a passar do meio-de-campo? Que tal Alex e Ronaldinho juntos? A outra questão também diz respeito aos volantes. Não faz qualquer sentido escalar Emerson e deixar Renato no banco. Mas esses ajustes virão no tempo certo, podem ter certeza. A estrada para o hexa é longa, e teremos muito tempo para polir nossas muitas e variadas armas até lá.


[08/SET/2003]


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