O Campeonato Brasileiro de 2003 mal completou um mês de disputa e já é possível apontar diversos técnicos que andam com os dias contados, além de uns quantos que foram categoricamente demitidos, com maior destaque para Oswaldo de Oliveira - que terminou sua longa agonia no São Paulo. A angustiante relação do ex-treinador são-paulino com o clube do Morumbi foi um resumo perfeito do maniqueísmo que historicamente pontuou o nosso velho esporte das botinadas: como nos romances policiais de quinta categoria, quando tudo dá errado a culpa é sempre do mordomo. E o mordomo, no caso dos clubes de futebol, é sempre o técnico da equipe.
Não tenho procuração para defender o Oswaldo de Oliveira. Em muitas ocasiões, inclusive, dirigi críticas ao seu trabalho. Críticas racionais, bem diferentes dos ataques imbecis que certas facções do clube dirigiram ao correto profissional. É verdade que falta ao Oswaldo - e isso é algo que ele deveria ter a humildade de admitir e consertar - um pouco de vibração e até uma certa malandragem. Jogadores de futebol são, em sua maioria, jovens de origem humilde e sem grande estrutura psicológica. A habilidade de falar a linguagem desses garotos e a capacidade de entusiasmá-los não com belos solos de jazz, mas com algumas palavras de ordem entusiasmadas, são requisitos importantes para um treinador de sucesso. Creio que Oswaldo, um fã de Chet Baker como eu, comete o pecado de ser excessivamente blasé em suas declarações à imprensa e preleções para os jogadores. Mas terá sido mesmo ele o principal culpado das campanhas irregulares que o São Paulo realizou nos últimos tempos? Acredito que não.
A maioria dos clubes que venceu campeonatos no Brasil construiu suas campanhas sob a batuta de um único treinador. Por outro lado, quase todas as equipes rebaixadas na história do esporte nacional trocaram de técnico pelo menos uma vez ao longo das competições. A conclusão óbvia, portanto, é que fazer mudanças no comando de uma equipe está longe de ser um método comprovado de melhorar o desempenho da mesma. Muito pelo contrário. Só que para os dirigentes é muito mais fácil jogar a culpa no mordomo de plantão do que discutir em profundidade os problemas que levam a equipe a jogar mal. Sou de opinião que os principais técnicos brasileiros se equivalem. Se não há entre eles um Proust, um Baudelaire, também não se pode dizer que são todos uns quadrúpedes de 32 patas - para usar a expressão de Nelson Rodrigues. Se os grandes clubes têm técnicos de nível equivalente, como um bom detetive inglês, prefiro buscar o autor do crime entre os suspeitos menos óbvios.
Não me lembro de ter ouvido uma torcida entoando gritos de protesto contra atrasos no pagamento dos salários dos jogadores. No entanto, estou absolutamente convencido de que é muito mais razoável imaginar que um problema como esse prejudica mais a campanha de um time do que a atuação do técnico. Elencos limitados certamente também causam maiores estragos do que as decisões dos treinadores, já que quando a matéria-prima é fraca não há gênio que resolva. Penso que sim. Torcidas ditas organizadas, que se arvoram na condição de donas da opinião pública nos estádios são, da mesma forma, mais prejudiciais à campanha de um clube do que a atuação do treinador. Por trás de todos os exemplos que acabo de dar, estão os verdadeiros culpados das más campanhas, ao menos na imensa maioria dos casos: os dirigentes.
São os dirigentes que atrasam salários, contratam maus jogadores e transformam facções da torcida em monstros de intolerância, quando tratam seus integrantes como apaniguados, distribuindo ingressos gratuitos ou com enormes descontos - privilégio que torcedores mais ordeiros e apaixonados jamais terão. Outro dia escrevi aqui que entre as mazelas do nosso futebol estão os torcedores que em vez de apoiar o time preferem agir como dirigentes. Mas existe uma mazela ainda mais grave: os dirigentes que teimam em agir como torcedores. A falta de profissionalismo na hora de contratar, de fornecer condições de trabalho e até na hora de demitir os treinadores mostra o quanto nossos dirigentes ainda são pré-históricos.
Contra os limitados Figueirense e Goiás, o time do São Paulo voltou a jogar mal e a torcida continuou vaiando. O mordomo Oswaldo de Oliveira já foi embora, mas a pergunta permanece no ar: de quem será a culpa daqui para frente?