A caminho de Niigata - cidade que abrigou a partida entre Inglaterra e Dinamarca pela última Copa do Mundo -, em meio a milhares de ingleses entusiasmados que tingiam de vermelho sangue as ruas e estações ferroviárias, um torcedor chamou minha atenção. Era um senegalês, com cerca de 60 anos de idade. Na verdade, seria impossível não notá-lo, em primeiro lugar por sua gigantesca figura de ciclope. Além disso, ele era o retrato vivo da euforia de seu país depois da vitória sobre os franceses. Mas o que mais me impressionou no torcedor africano foi uma tabuleta que ele carregava para todos os lados, como se fosse um troféu. A tabuleta não fazia referência a Senegal, nem mesmo à Copa do Mundo de 2002. Ela trazia apenas o desenho de uma bandeira do Brasil e uma mensagem curta: ''Garrincha, eu me lembro''.
Durante uma Copa do Mundo histórica - da qual Senegal participava pela primeira vez -, dias depois da inesquecível vitória sobre os antigos colonizadores, com sua seleção classificada para as quartas-de-final, em meio a tudo isso, era em Garrincha que o torcedor usando roupas tribais e enfeitado por milhares de argolas pensava. Ao ver aquela tabuleta, eu também esqueci a Copa por alguns instantes para pensar na doce e santificada figura de Mané Garrincha, que se despediu da vida, da bola, dos gramados, dos joões e - por que não? - da cachacinha e das mulheres há exatamente vinte anos. Vinte anos sem tardes de futebol preenchidas pelos dribles do mais inventivo e imprevisível jogador da história. Vinte anos que passarão sem uma mísera homenagem por parte da CBF ou do Botafogo - clube que amou, defendeu e transformou em legenda.
O nosso anjo das pernas tortas, que em linhas tão certas escreveu as mais belas páginas do futebol brasileiro, se acostumou, ainda em vida, a ser esquecido pelos dirigentes. Pior para eles, pobres de espírito. Garrincha não se importaria com isso. O que sempre encheu seu coração foram as homenagens do homem simples, da gente do povo, dos amantes do futebol arte. As lembranças de Garrincha chegam à minha mente sempre em preto e branco. Como a linda camisa do Botafogo, ou como os melhores filmes, documentários e fotografias que o mundo já produziu. Assim como os artistas das câmeras, Garrincha também criou suas obras-primas em preto e branco.
Existe pelo menos um brasileiro que não tem qualquer problema em afirmar que Garrincha foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos. Seu nome é João Moreira Salles, grande amigo. ''Mas esse é um botafoguense roxo'', se apressarão em denunciar alguns. ''Documentarista que é, certamente percebe as coisas com objetividade'', defenderão outros. O que importa é que o João dedicou umas boas horas de sua existência à tentativa de me convencer da superioridade inquestionável e definitiva de Garrincha sobre o rei Pelé.
Sei que Pelé foi grandioso e inatingível como atleta. Mas Pelé -- e isso, confesso, me incomoda um pouco - foi perfeito demais. Será que o futebol também se torna mais sublime quando, através de formas e caminhos imperfeitos, obtém a harmonia impensada? Será que, como nas grandes obras da literatura, não é no mistério do não contado, na magia das palavras não ditas, que reside a verdadeira arte do esporte? Quando penso em Garrincha, recordo-me da história do Paulo Francis com o Picasso. Ele passou a vida criticando, aqui e ali, o trabalho do gênio espanhol. Mas um dia, poucos anos antes de morrer, o Francis escreveu assim em sua coluna: ''Picasso foi o maior pintor. E ponto''. Uma maneira direta e definitiva, bem ao seu estilo, de encerrar a questão. Em seus dribles, Garrincha era como Picasso. Jamais pintaria o teto da Capela Sistina, mas poderia perfeitamente dizer: ''Eu não procuro, eu acho''.
Não sei não, mas acho que um dia, quando estiver bem velhinho, sou capaz de dar o braço a torcer para o amigo João e escrever assim: ''Garrincha foi o maior jogador. E ponto''. Por enquanto, fico feliz em poder dizer como o senegalês: Garrincha, eu me lembro. Abençoado seja o nosso craque. Bendito seja o nosso menino passarinho, único jogador a conseguir enxergar o jogo com olhos de poeta. O Quasímodo dos gramados, que fez do Maracanã a sua catedral de Notre-Dame - e das nossas vidas uma aventura cheia de sentido.