O exército brasileiro tem alguns generais, uns poucos marechais, mas apenas um patrono: Caxias. O duque era tão identificado com as conquistas das Forças Armadas que seu nome se tornou sinônimo de patriotismo. Independente dos questionamentos que possam ser feitos à figura histórica, hoje os brasileiros sabem exatamente o que pensar de alguém que é chamado de ''Caxias''. Convidado mais uma vez a ocupar um cargo na Seleção Brasileira - ele que já foi soldado em 1958 e 1962, general em 1970 e 1974 e marechal em 1994 e 1998 - Zagallo parece ter conquistado definitivamente o status de patrono do futebol nacional. Um cargo vitalício e incontestável, uma honraria eterna.
Não é Zagallo, entretanto, o assunto desta coluna. Menciono sua hierarquia de patrono apenas para comentar a habilidosa estratégia que reconduziu ao comando da equipe mais poderosa do planeta o professor Carlos Alberto Parreira - ele sim, o personagem da semana. Parreira havia anunciado que não desejava voltar a ocupar a segunda posição mais complicada do país, em termos de exposição na mídia e cobrança popular. Mais exposto que técnico da Seleção, apenas o presidente da República. Só que os atrativos da Seleção não são poucos: enquanto Lula ganha R$ 8 mil mensais para comandar o país, Felipão, enquanto esteve na Seleção, ganhou US$ 250 mil por mês - cem vezes mais que o presidente.
Dinheiro não é exatamente um problema para Parreira, sujeito econômico e sensato que fez um bom pé-de-meia trabalhando em equipes do Brasil e do exterior, e com os petrodólares que recebeu para treinar seleções do mundo árabe. Por dinheiro ele não aceitaria voltar a sofrer com a pressão da opinião pública, algo tão inerente ao cargo de treinador da Seleção quanto o boné e o agasalho. A demissão, em 1983, e o inferno astral das Eliminatórias de 1993 ainda devem repercutir em seus pesadelos. Ele queria mesmo era ser coordenador técnico, um cargo menos desgastante e afastado da linha de tiro de dois ferozes exércitos, conhecidos como imprensa e torcida.
Malandro velho - velhíssimo, aliás -, Zagallo usou o carisma de patrono para convencer Parreira a ser o seu general na batalha das Eliminatórias e na campanha do hexa. Ninguém testemunhou a conversa, mas é possível adivinhar alguns dos argumentos do Velho Lobo. Ele certamente foi sentimental e falou em nome dos velhos tempos, posto que trabalharam juntos pela primeira vez na inesquecível conquista de 1970. Deve ter dito algo assim: ''Olha, Parreira, esta vai ser minha última Copa, minha última guerra, e eu quero a honra de lutar mais uma vez ao teu lado''. O patrono também deve ter observado que a pressão agora será menor. Afinal de contas, o Brasil vem de duas conquistas em três finais consecutivas, algo totalmente diferente dos 24 anos de fila que eles enfrentaram em 1994.
O argumento definitivo, porém, deve ter sido especial. E eu aposto neste aqui: _ Olha, Parreira, apesar de ninguém discutir a importância da conquista de 1994, muita gente ainda te considera retranqueiro. Eu sei que naquela Copa você levou os melhores, e que não foi culpa sua que uma geração farta em craques de ataque e defesa fosse mal servida de meio-campistas. Levar quem no lugar de Mazinho, Zinho, Dunga e Raí? Palhinha? Pois esta é a chance de repetir numa Seleção cheia de craques o ofensivo 4-3-3 que você usou no Corinthians. O seu trio de ataque pode ser Ronaldo, Ronaldinho e Robinho. Três Rs, outra vez! Para o meio você tem Rivaldo, Kaká, Diego, Kléberson, Ricardinho... A defesa possui a base da última Copa. A safra é fabulosa - e essa é a sua chance de botar o Brasil para jogar bonito e provar que você também entende de espetáculo.
Seduzido pelo Velho Lobo, Parreira disse ''sim''. Como a maioria da torcida brasileira - que indicou o seu desejo em todas as pesquisas realizadas sobre o assunto - eu festejo o retorno do professor à Seleção. Quem acompanha as minhas colunas sabe da ojeriza que eu tenho dessa história de chamar treinador de ''professor''. Mas o caso de Parreira é diferente. Diplomado em Educação Física, especializado em preparação física e administração esportiva, estudioso da psicologia do esporte, profundo conhecedor das táticas e estratégias do futebol e, além de tudo, um lorde no trato com pessoas, Parreira não é professor por mera deferência. É um reconhecimento mais do que justo pelo esforço que ele fez para se tornar o mais capacitado técnico do país. Vamos ao hexa! Mas, desta vez, com espetáculo, certo?